Terça-feira, 3 de Julho de 2012

Tirar a barriga da miséria

A beleza cansa e a perfeição não dá jeito nenhum. São, claramente, uma maçada.

De gancho. Exigentes. Julgam-se importantes. Embirram com o andar desarranjado. Mandonas. Não admitem perder a compostura. Sair desfraldado. Cabelo desgrenhado. Não dá para ter barriga. Mandam-nos o ar desleixado às urtigas.

 

Todas as minhas dúvidas acerca da natureza do belo e do sublime se acentuam a cada nova época balnear. Momento que marca o início de, em termos mais populares, cada bucha ansiar por passar a estica. Reclamando para si (obsessivamente) um corpo deslumbrante. Ansiosos por reinar no areal e ter sobre si uma miríade de olhos.

Entre 1 de Junho e 30 de Setembro de cada ano, duração da época balnear, multiplicam-se os efectivos de homens e mulheres exercitando-se frenéticos, como coelhinhos da Duracell. Adelgaçando. Rejuvenescidos do pescoço à barriga-das-pernas. Estômagos em alvoroço. Oferecendo-se, voluntariamente, aos voyeurs. Vivendo sob o mote Life’s a SPA.

Sem terem presente Yeats:

 

I heard the old, old, men say 'all that's beautiful drifts away, like the waters.'

 

A cada nova passada no areal encolho a barriga repreendido pelo belo aristotélico, seguindo critérios de simetria, composição, ordenação, proposição, equilíbrio; pressionado pela proporção, harmonia e união platónicas.

 

As minhas preocupações balneares são, claramente, mais filosóficas do que com os escaldões. Mais exigentes do que a simples escolha adequada do factor de protecção solar.

 

Em cada duna há um David acompanhado de uma Vénus lendo os êxitos literários de Richard Bach, observando-me desdenhosos. Sou, constantemente, censurado por um Doripohoros bronzeado que aproveita para repreender, com o olhar, a palidez de uma Sylvia Plath próxima, enamorada pelo nadador salvador supondo-se em Baywatch.

 

O que me custa na magreza dos outros é que ela exige a minha. Reclama-a. Como se dissesse: «só sou se também fores». Recaindo sobre mim uma desconfiança equivalente à reunida por Dominique Strauss-Khan. A minha liberdade acaba onde começa a dieta do outro.

Em relação a esta, o melhor a fazer seria decretar a sua inconstitucionalidade. Ilegalizá-la. Erradicá-la com uma forte campanha de vacinação. Um movimento de descontentes sob a égide «vítimas das dietas de todo o mundo uni-vos», lutando pelo seu fim.

 

Não me incluo num certo California dreamin’ de tríceps, peitoral e bíceps vigorosos bamboleando salinizados à beira-mar. Muito senhor do meu nariz.

Em termos estéticos, também, estou completamente desenquadrado de qualquer consideração presente em obras como o Hípias Maior, O Banquete e Fedro, de Platão, a Poética, de Aristóteles, a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant e os Cursos de Estética de Hegel.

A minha linha estética assume-se mais no “Boterismo”.

As minhas opções são mais gastronómicas e isso nota-se. Gaspachos, migas e rojões acumulados. A aparência não ilude.

O meu físico sobressai mais em ambiente de biblioteca. O meu potencial é mais cerebral do que corporal. As minhas possibilidades são virtuais de um ponto de vista estético tanto em baixa-mar como em preia-mar. Uns furos abaixo de uma realidade desejável. Para lá da salvação via lifting ou botox em aplicações de Photoshop.

 

Na melhor esplanada da praia avalio, habitualmente, a elasticidade e o empenho dos quarentões com cabelo à Jon Bon Jovi, das entusiastas das danças exóticas, mais os infiltrados do hip-hop, dissidentes com t-shirts dos Motörhead e seleccionáveis para a ginástica de trampolins. Expelindo scones, bolas-de-berlim, ensopados e açordas da cintura. Escorraçando calorias. Aformoseando silhuetas. Deserdando o remanescente. Preparando-se para a passadeira vermelha.

 

De bandeira içada ao desmazelo grito para dentro do balcão: «era mais uma dose, se faz favor. E já agora, mais pão que o molhinho está uma delícia.» Época inteira para «o melhor que se leva da vida é o que se come e o que se bebe». Honrarias para uma primavera pueril descontinuada. Um “deixa andar” folgazão.

 

Com a idade devíamos poder desleixar-nos. A barriga como direito assumido e não controlado. Ela marca, aliás, uma diferença. Redonda. Honesta. Parece dizer: «há mais de onde essa veio». Encolhendo os ombros quando confrontada. À insustentável leveza dizendo: «não, obrigado!». Indiferente. É a assunção máxima da liberdade. Em terra de magros quem tem barriga deveria ser rei.

Mas não? Ou é pela saúde ou porque fica mal… Todos os anos me sinto na obrigação de também eu ter de ser um Apolo, quando a minha índole é mais dionisíaca. Mas, a cada nova tentativa apago-me. Entre uns abdominais firmes e uma barriga cheia não hesito. A escolha é clara: entre as 220,57 kcal ganhas numa porção de amêijoas à Bulhão Pato e as 240 kcal perdidas com musculação forte ou as 200 kcal com ginástica aeróbica, prefiro o ganho à perda. E sempre se honra o poeta e escritor português Raimundo António de Bulhão Pato.

 Depois repouso durante 30 minutos com o que consigo perder aproximadamente 30 calorias e junto-lhe um beijo que rende outras 30. O que sobrar fica por conta e a cultura sai valorizada!

 

Felizmente a estética também pode ocupar-se do ridículo. O que, de alguma maneira, faz com que tudo faça sentido.

 

Confirmem-me só que a época balnear acaba a 30 de Setembro. Hoje levantou-se uma aragem desagradável aqui no Pólo Norte. Desfraldado, de rins à vela, é melhor não arriscar nenhuma corrente de ar e regressar.

publicado por Máquina-da-Preguiça às 12:54
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2 comentários:
De Lwillow a 4 de Julho de 2012 às 02:04
Para mim a 1ª frase é 'meio-golo' (fulcral) , um 'passe' (mote) perfeito para que depois o 'ponta-de-lança'(escritor) pudesse escolher a forma de 'fazer golo'(escrever o texto). Não desperdiçaste o 'lance' e acabaste por 'facturar', mas 'Cá pr'a mim', a 'assistência para golo' foi o 'ponto alto' de toda a 'jogada' .
De Helena Marques a 8 de Julho de 2012 às 05:31
Eu ando em dieta há 20 anos, desde que deixei de fumar e dos 44 passei para os 54, agora tenho 75 lol, já tive menos e já tive mais, já nem me importo, o médico importa-se mais do que eu.

Citando Frost (depois do seu Yeats) ''Nothing gold can stay''

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