Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Momento infantil (onde estás, Ana Maria?)

 

Sempre achei que a infância é sobrevalorizada. É evidente que posso afirmar coisas destas porque tive o privilégio de ter uma, coisa que muitas crianças não têm. Mas como o que interessa para esta conversa é a norma e não a terrível excepção, repito: a infância é sobrevalorizada, um mito de freudianos convictos. A adolescência sim, é um território terrível e que deixa marcas. Mas isso, como cantava o outro, é outra crónica.

Permitam-me que desenvolva a teoria lançando a temida questão que pulveriza todos os argumentos contrários: se a infância fosse tão importante, como teria eu sobrevivido à Ana Maria?

 

Ah, a Ana Maria: loiríssima, olhos azuis cor do céu, rosto de boneca, bela nos seus oito anos. Todos os rapazes da minha classe estavam apaixonados por ela. Eu, que aos meus oito anos era pedófilo, não era excepção. Mesmo sabendo que por trás daquele ar angelical estava a maior sacaninha do colégio: por ter a preferência da directora, denunciava os colegas e transferia culpas com a mesma facilidade que encantava com um sorriso. As raparigas – que sempre foram mais sábias – odiavam-na ou queriam estar à sua sombra. Os rapazes adoravam-na, mesmo enquanto avançavam cabisbaixos a caminho do gabinete da directora.

 

Como é previsível, teria de ser com a Ana Maria que iria ter direito ao primeiro sabor de um beijo nos lábios. Até hoje não sei por que me escolheu, se pela cara de ingénuo se pela incapacidade de pronunciar uma única palavra quando ela falava comigo. Sei que uma tarde de Verão, no bengaleiro do colégio e pouco antes da saída, aproximou-se de mim e chamou-me. Mal tive tempo de virar a cabeça e recebi um beijo meio sorriso, em cheio nos lábios. Com a surpresa, desequilibrei-me e bati com a nuca num dos ganchos de aço que servia de cabide. A Ana Maria, entretanto, tinha desaparecido e só ficou o eco das suas gargalhadas.

Voltando à minha teoria: se a infância e as suas marcas fossem tão importantes, ainda hoje associaria o prazer sexual (o beijo) com a dor (o imbecil do cabide). Ora isso não acontece. Não querendo partilhar demasiada informação com o leitor, não tenho vocação para jogos S&M, em que mulheres vestidas de corpetes negros e calçando afiadíssimos stilettos passeiam sobre as minhas costas, batendo-me e perguntando «Quem foi um menino mau?», enquanto jazo amarrado e peço perdão ao som do Deutchland Über Alles e é nessa altura que ela [nota do Sinusite Crónica: Já percebemos Nuno. Podes voltar a sentar-te. Obrigado] Peço desculpa. Pronto, nem sequer penso nisso. Que tal estas maçãs, freudianos?

 

Lembro-me também do 25 de Abril de 74, em que fiz a minha mini-revolução, protestando por querer ir para a escola e não me deixarem. A causa não era o amor ao saber: era o regresso da Ana Maria, após prolongada ausência por doença. Em vez das aulas os meus pais levaram-me a passear por Lisboa onde vi homens barbudos e armados com flores na boca. Isso sim, foi traumatizante.

Agora, muitos anos depois, com a maré da crise de meia-idade, alguns dos meus antigos colegas da primária organizam almoços semestrais, onde o prato principal são as memórias. Somos homens feitos, empresários, gestores, artistas, eu. Lembramos que nem sempre gostámos uns dos outros. E depois lembramos a Ana Maria. «Ah, a Ana Maria…», diz o coro em uníssono.

E isto não é a infância a falar, são os passos distantes do nosso primeiro amor.
publicado por Nuno Miguel Guedes às 19:45
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2 comentários:
De Helena a 5 de Abril de 2008 às 00:28
O trio Odemira fez juz ao sua história de amor?

De Nuno Miguel Guedes a 5 de Abril de 2008 às 06:26
Ah pois fez. Noutra vida tive uma banda e um dos momentos altos era a versão metálica de "Tu só tu -Ana Maria"...Mas não vamos falar disso agora...

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