Domingo, 1 de Julho de 2012

Manobras de bastidores: uma celebração sinusítica

Há uns dias atrás, numa das poucas aparições boémias a que tenho direito com o meu amigo e co-arrendatário desta casa - o Nuno Costa Santos - falámos, imagine-se, deste blogue. Era tarde, provavelmente. Falta de conversa, quem sabe. A minha aposta, como tive o fôlego de dizer ao Nuno na altura, era que não podíamos sair do estabelecimento em que estávamos. Não porque estivéssemos, ufanos e ébrios (escolhei a ordem e a relação causa-efeito, já confessei tudo à polícia) com duas cervejas servidas em copos de vidro; era mais porque o Nuno ostentava melancomicamente uma resma de livros que incluía Peter Brook e uma compilação dos melhores monólogos do século vinte. A sério. Não se anda no Cais do Sodré assim.

 

Mas no meio dos risos, dos trinta sketches inventados e esquecidos (retive este, porque a culpa é minha: "o que diz Molero de Ravel"), a reiterações à beira da lágrima pela constatação da felicidade alheia ("à beira" porque um homem não chora com livros na mão)  e da contínua celebração da amizade que acontece nos lugares mais impróprios e em que astrologicamente falando tudo parece conjugar-se (quantos dos meus leitores terão ido ao nightclub  Roterdão a horas obscenas e terão sido brindados por um barman intelectual que propõe «shots Zizek"?), a coisa veio parar a este lugar. 

 

Que éramos desorganizados. Irregulares. Com os mais disciplinados e regulares a zangarem-se justamente com os preguiçosos. Mas depois. Depois um tipo distancia-se, lê e vê as idiossincrassias que fazem esta chafarica funcionar. Eu, por exemplo sou dado a homilias.

 

«Sou o  sinucínico de serviço, Nuno», balbuciei maravilhado com o meu trocadilho antes de cair do banco do balcão.

«O caraças. És um romântico na clandestinidade», respondeu o Nuno atrás do shot Zizek e dos ensaios do Peter Brook, com o Jel a carregar nos Smiths.

 

Se vos conto isto, leitores, não é porque é verdade (e é). É porque precisamos destas palavras para a vida e da vida para estas palavras. É porque os afectos é que movem esta treta toda. É porque o sacana do coração, por mais fato e gravata que se vista, não se pode alugar. É para que se perceba, se dúvidas houvessem, que aqui há gente dentro.

 

«E se fizéssemos um livro?», perguntou alguém, talvez o barman ou a Máquina da Preguiça.

«Primeiro janta-se. Depois pensamos se ofendemos os leitores de um modo tão definitivo», disse alguém que gostaria que tivesse sido qualquer um de nós mas sou eu, agora e aqui, feliz nesta memória.

«Boa ideia», concordámos em nome de toda a gente.

 

Não sei se irá acontecer. Há um jantar por marcar. Mas no pior dos cenários - nós decidirmos que sim e uma editora que vá ao Roterdão nos aceitar - sabei isto, amáveis leitores: não queremos que nos comprem. Queremos que saibam o grato que estamos (falo por todos, certo?) por poder fazer estes malabarismos de palavras que são pouco menos que as nossas vidas.

 

De qualquer forma, aconteça o que acontecer, fica já apontado que a ideia não foi minha.

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:52
link do post | comentar
1 comentário:
De Anabela M a 1 de Julho de 2012 às 16:35
Gosto que me seja dado esperar amanhãs.

Anabela

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever