Domingo, 17 de Junho de 2012

A vida não tem atalhos

 

(a S.C)

 

 

 

Não sei se vos acontece, leitores, e é mais do que provável que não estejam interessados. Mas já que aqui posso estar, suplico indulgência para estas simples palavras.

 

Acontecem estes pensamentos em contraciclo, quando os dias estão cheios de nada que nos impõem ou cheios de tudo o que nos apetece: o Euro, o euro, os festejos do santo lisboeta que foi erudito e recluso mas que insistem em celebrar fazendo simulacros ébrios de manifestações na Síria. Os dias dos piqueniques com marca na mais bela praça da capital, o péssimo equipamento alternativo da selecção nacional, as contestações públicas porque sim, as contestações privadas porque enfim, a indignação desorientada que transforma o indignador na cousa indignada.

E entretanto a vida. Num relapso, numa repetição de uma finta, num olhar que escapou às câmaras - a vida. No meio desta Babel que amamos e odiamos, poder olhar para o que nos acontece, poder olhar para os outros, poder olhar para o tempo.

Aviso: por feitio e necessidade consegui fazê-lo. É um exercício perigoso, anti-social e tão mal-visto como ter o contacto pessoal do Miguel Relvas. Mas é necessário. O exercício, não o Relvas. Parar, por segundos que sejam, na feira popular do nosso quotidiano e olhar para única invenção humana que nos conseguiu escravizar:o tempo. O inventor de todos nós, Shakespeare (sim, sou Bloomiano, obrigado a todos) avisava exemplarmente no Henry IV: "But thoughts, the slaves of life, and life time's fool.And time, that takes survey of all the world, time must have a stop".

 

Decerto, mas qual tempo, de todos os que vivemos? O dos amantes, tão diferente e tão rápido em relação a quem arrasta os passos pelas manhãs?  O tempo do que sabe que vai morrer? O que espera em vão o encontro que nunca irá acontecer? O que se esquece do prazo do IRS? O tempo que destrói o amor, como avisava Vieira?

 

A vida é feita de todos estes tempos e nós, no nosso egoísmo, não paramos para os observar e disfrutar. A vida não tem atalhos. E se não nos entregamos com tempo a olhar para os caminhos que os tempos nos oferecem, passamos ao lado do que é realmente importante. Porque o tempo não é o nosso amo, é apenas a derradeira incógnita. Se não o olharmos nos olhos, mesmo quando nos fere, perdemos o jogo. Não é o tempo que tem que parar: somos nós. Ou então brincamos a alguma coisa a que abusivamente chamamos de vida.

 

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:00
link do post | comentar
4 comentários:
De Sofia a 19 de Junho de 2012 às 08:54
You are SO dead. SO dead...:)
De Nuno Miguel Guedes a 19 de Junho de 2012 às 15:58
I'm sorry, your name again...?
De Sara Raposo a 20 de Junho de 2012 às 00:19
Parar seria um erro. Parar não à conduz à vida, mas sim à morte ou pelo menos ao seu irmão mais novo, o sono.
De Nuno Miguel Guedes a 20 de Junho de 2012 às 14:30
Sara, não é parar. É pausar.Contemplar. Usufruir. Avançar por avançar não é viver, é fugir.

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever