Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

A falsa questão do amiguismo

A vida artística portuguesa tem sido assombrada pela ideia de amiguismo. É uma das críticas que se faz a alguma crítica - a de que só escreve bem deste ou daquele por amizade, não pela qualidade das obras. Hoje, na blogolândia, é mui frequente registarem-se declarações de interesses do género: "Eu não vou dizer isto por amizade mas acho que o livro do Anaximandro é do caraças". Eu não vou dizer isto por amizade mas o sacana do livro é bom. E quem diz o livro diz o disco, a peça, a exposição de pintura, a performance, o artigo de jornal. Como se sem essa nota a observação perdesse força e relevância. E como se com ela se iluminasse como um astro flamejante.

 

Se calhar até há alguma rapaziada que escreve, como se diz, na base da amizade. Na vontade - por vezes inconsciente - de promover os amigos (e haverá algo mais ingenuamente belo do que desejar promover os amigos?). Mas confesso que tenho dificuldades em embarcar neste delírio moralista do "amiguismo". Até porque é um critério perigoso. Necessita que, antes de mais, se faça a pergunta: o que é ser amigo de alguém? E outra: será que quando gostamos muito de um determinado autor não nos tornamos amigos dele? Ou seja: não lhes desculpamos os erros e os tiros ao lado e não queremos falar bem dele a toda a gente? Confesso: seguindo este último critério (que, na minha qualidade de bicho afectivo, adopto frequentes vezes), sou um grande amigo do Vila-Matas, do Robert Smith e da Agnès Varda. Gente com quem nunca tomei uma imperial ao balcão da Portugália.

 

Esta intifada contra o amiguismo pressupõe um equívoco maior: a ideia de separar os afectos daquilo que se consome artisticamente. A ideia de absolutização da "emoção estética pura" que não se transporta para as razões do coração de todos os dias. É um fundamentalismo como outro qualquer, que merece compaixão (um riso ternurento, sim). Se nos dermos ao trabalho de pesquisar um pouco, perceberemos mesmo que é um exagero quase patológico,  excluindo uma tradição muito praticada nalguns dos ditos países mais civilizados do mundo (o que é isso?), com a imagem de crítica independente e séria (o que é isso?),  em que escritores escrevem sobre amigos escritores, artistas plásticos escrevem sobre amigos artistas plásticos e por aí adiante. Por quê? Por cumplicidade geracional, por generosidade de querer espreitar de forma mais fundamentada o trabalho do companheiro de tertúlias e copos. Porque sim. E sobretudo porque muitos desses exercícios ficam, pelo seu rasgo e qualidade, para a História (mais do que aquelas notas burocráticas das "recensões").

 

Penso que o amiguismo está longe de ser a questão fundamental da crítica. Há outras bem piores, como o unanimismo. A falta de coragem de arriscar observações artisticamente incorrectas. O ressentimento. O preconceito fácil, do género "eu só vou falar bem disto porque convém falar bem disto", o "eu vou falar mal disto porque convém falar mal disto". Sobre estas maleitas, se quiserem, podemos falar um dia.

publicado por Nuno Costa Santos às 09:40
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2 comentários:
De cs a 8 de Junho de 2012 às 14:20
é porque escreve estas crónicas que sinto um certo amiguismo por si :))
De Nuno Costa Santos a 9 de Junho de 2012 às 04:08
:)

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