Segunda-feira, 4 de Junho de 2012

onde a história cruza com a rua e

Não sou do tempo do vinil. Enfim, não no sentido último. Não faltavam singles e LPs na casa paterna, bem acomodados num velho móvel gira-discos que fora prenda de casamento e que ainda dura (o móvel, mas também o casamento). Só que, quando chegou o momento de ter o dinheiro e a paixão para comprar música própria, já estavámos no CD.

 

Com pena. Gostaria de desfraldar histórias de velhos 55 rotações e truques para contornar agulhas dadas a idiossincrasias, falar do murmúrio do papel da bolsa interior libertando o vinil, do pó, de grandes sessões de vira o disco e toca o mesmo.

 

Não foi assim. Paciência. Chegamos frequentemente no fim das festas onde sonhámos ter dançado.

 

Apesar de tudo, ainda fui do tempo dele. Do disco. E posso falar do primeiro que comprei – e não do primeiro download que fiz (aí, confesso, não sei onde se carimbará a nostalgia).

 

E, como se, nas matérias essenciais, o acesso fosse vedado ao acaso, entre tanto mau gosto da adolescência, decidi que o primeiro disco que compraria seria de Bruce Springsteen (os homens conhecem-no como aquele da guitarra; as mulheres como o do rabo). Valor seguro. Anjos-da-guarda falando por nós. Coisa que não passaria. Ordens superiores dos espíritos do futuro. Podia ter sido Onda Choc, mas eles não o permtiriam.

 

Isto para chegar aqui, à manhã de hoje, quando Lisboa parecia ressacar do espectáculo de ontem. O Chiado deserto, as passadeiras livres para atravessar no vermelho, vozes roucas, um silêncio de surdez pós descarga histórica de decibéis.

 

Bem sei que não será assim. A imprensa diz que estiveram lá 81 mil pessoas, um número gordo, mas que não dará para contaminar uma cidade por onde passam dois milhões e meio, todos os dias. Mas eu digo que é. Que o condutor do metro ainda vai a trautear o “Thunder Road”, que esta gente de phones está a descobrir “The River”, que nos escritórios se correm os estores e desligam as luzes para ouvir, só mais uma vez, “Dancing In The Dark”.

 

Pois. É só música. Música, letra, homens e mulheres all-american, ainda por cima. Coisa muito própria, sobre coisas que, dirão, não vivemos. Mas vivemos. Ainda esta noite, vivemos outra vez. Springsteen como “boss” eterno e indiscutível, pai, irmão mais velho de gente que lhe comprou o primeiro disco em três décadas diferentes. A gritar, a solar, a explicar por que não veio a mulher, a discursar, a pregar, em português, em inglês, em soul, a pegar num miúdo ao colo, a abraçar as garotas, a aceitar pedidos, a correr, a guitarrar caído no chão, a dar o coração inteiro como quem acaba de chegar a casa. A E Street Band como filarmónica de super-heróis. As canções de operários, vagabundos, jovens casais desencantados, famílias que se têm de proteger, fantasmas e outras coisas misteriosas, mas que estão na razão de todos sermos, de vez em quando, insignificantes e gloriosos.

 

A imprensa pormenorizará os acontecimentos; a crítica fará os balanços. Daqui, a crónica termina garantindo que Springsteen nos salvou outra vez a vida, a nós e às boas dezenas que de perto vimos em volta (não há prova científica de que tenha salvo os 81 mil, embora o bom senso para isso aponte), ligando outra vez o sentido das coisas.

 

Aquele primeiro disco, comprado com os dinheiros dados pelo avô e as fracções subtraídas ao lanche, foi para nos trazer até aqui. Orgulhosamente roucos de ter passado a noite a gritar com um bando de outros furiosos reencontrados. Rebeldia passageira e redentora. Sonhos de erros que temíamos não ter cometido. Mesmo que só por aquele momento sejam verdade.

 

Tramps like us, baby we were born to run.

publicado por Alexandre Borges às 15:51
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2 comentários:
De jorge c. a 4 de Junho de 2012 às 16:59
De repente, toda a gente tinha 17 anos, toda a gente voltou a ficar inquieta e deslumbrada com a vida. A mim, é assim que o Boss salva. Lembra-me que nunca deveria deixar de olhar para as ruas.
De manuela a 4 de Junho de 2012 às 20:02

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