Domingo, 3 de Junho de 2012

Alguns aforismos sobre cartas, para uso das crianças e do povo

 

As cartas são o lugar onde as palavras vão quando querem viver. É o habitar no silêncio de quem as recebe que as mantém vivas.

 

As melhores cartas são as que nunca foram escritas, tal como as melhores palavras são as que ficam por dizer.

 

Todas as cartas são poemas. As cartas de amor são poemas ridículos.

 

Uma carta sobre uma carta sobre antes do derradeiro desespero: «Late afternoon Friday my last sight/ of you alive./ Burning your letter to me in the ashtray/ with that strange smile». Ted Hughes escrevendo a si próprio com a dor da última visão de Sylvia Plath.

 

Todas as cartas, embora tenham data, nunca são datadas. Perduram na memória e renascem sempre que as relemos. Obrigam à ressurreição em vida.

 

Das pouquíssimas coisas certas ditas por Rousseau: «As cartas de amor começam sem saber o que se vai dizer e terminam sem saber o que se disse».

 

O nosso mundo é fundado sobre correspondência: Abelardo e Heloísa no Historia Calamitatum, Séneca a escrever a Lucílio, São Paulo para os Romanos e Coríntios.

 

«Nunca um escrito saiu de qualquer mão que se não tornasse um fruto vivo», avisava há quatro séculos D. Francisco de Portugal. Como explicar isto a uma geração que escreve «axo q t amo»?

 

Uma carta recebida é sempre uma ausência percebida.

 

O médico pode salvar vidas, o juiz pode julgá-las mas é o carteiro quem as transporta.

 

Uma carta de amor sincera e bem escrita pode facilmente redimir toda a Humanidade.

 

Soror Mariana Alcoforado, o jovem Werther: dois casos de amores bem correspondidos.

 

Qualquer carta de amor é uma utopia solitária.

 

As formas epistolares electrónicas do nosso tempo carecem da verdade do manuscrito. A mais arrebatada declaração transforma-se numa notificação das Finanças.

 

A caligrafia é o coração da carta. Assis Pacheco percebeu-o e proclamou a sua radical beleza: «Porque tudo se escreve com a tua letra».

 

Todas as cartas trazem consigo um destino mesmo que não tenham destinatário.

 

Não é por acaso que desconfio do Tarot: tentar perceber o destino nas cartas é uma violação de correspondência.

 

Nos romances epistolares que atravessam a literatura podemos encontrar um inventário completo das paixões humanas. Das Ligações Perigosas a Drácula, sempre humanos, demasiado humanos.

 

Todas as cartas que enviamos são o nosso testamento. Mas sempre que as escrevemos estamos a iludir a morte.

 

Quem escreve uma carta deixa sempre o corpo para enviar a alma num sobrescrito.

 

Nas cartas existe sempre uma gramática masculina ou feminina. Durrell dizia que as mulheres escrevem sempre as melhores cartas aos homens que estão a trair. 

 

Numa carta a ortografia deve ser um estilo de vida.

 

Todas as cartas são de jogar. Naquelas que são escritas jogamos apenas os dias.

 

 

[texto originalmente publicado na edição «Cartas» da revista Egoísta, em Março de 2012. Esta edição (e a «Viagens») venceu o Grande Prémio Categoria Revista dos Papies deste ano]

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:39
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever