Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

O Problema Está Nas Mangas

Acho que é o senhor Albert Camus (sim, esse) que tem um conto em que um homem isolado escreve, na solidão do seu quarto, uma inscrição que não se percebe se é “solitário” ou “solidário”. Não tenho a certeza. Mas se é só lhe fica bem ter tido essa ideia no papel. Porque de facto muitas vezes as condições tocam-se. Há muito bom solidário solitário. Há muito boa solidão que se quer dar aos outros, que se quer abrir ao mundo. Só não percebeu como. Até porque os dias não estão para isso. Os dias não estão para gestos largos, generosos, maiores. Não falo apenas da falta de condições financeiras para ajudar quem precisa (tanta gente, caramba!). Falo do cinismo que se instalou e que é, para citar o economês de esquina, um verdadeiro programa de desincentivo ao investimento de quem descer à rua e começar a perceber quem os são os vulneráveis do bairro. Dos mais velhos aos mais pobres.

 

Tornou-se ainda mais difícil tentar ser solidário num mundo que promove não só a solidão mas sobretudo o individualismo blasé. A boca de balcão. Ou de twittada. Tornámo-nos cínicos – e não daquele cinismo bem-humorado e elegante, que põe em causa só para chatear; daquele cinismo que seca - e se calhar ainda não percebemos que essa é a maior doença deste tempo. Os centros de saúde espalhados pelo país deviam ter consultas para acabar com este cinismo, com esta patologia que questiona cada gesto de amor, cada tentativa, que mata quem tenta e se esforça. “Foste ajudar aquela senhora a atravessar a rua? Isso é porque te queres sentir melhor!”. Estão a perceber o que digo? A especialidade da casa – esta casa que habitamos chamada mundo - tornou-se a problematização. Nisso ninguém nos bate: somos muita bons a problematizar. E nisso, repito, não há solidariedade como a nossa. Estamos sempre prontos a ajudar quem tomou a decisão de arregaçar a manga para ajudar quem precisa. Ajudar a quê? A fornecer-lhe problemas à cachimónia, a dizer-lhe para se deixar de coisas, a voltar para casa, a parar, a regressar à condição de ser autocentrado, sem disponibilidade para outros umbigos, outras respirações. “Não te metas nisso, pá! Vais ajudar os pobrezinhos para quê? O Governo que trate do assunto. Só te vais meter em problemas. Eles ainda se vão virar contra ti. Tu não tens nem condições para te ajudar a ti próprio quanto mais para ajudar os outros”. E um tipo paralisa. Recua. Fica com dúvidas.

 

Sabemos que ser solitário é uma condição que nos cabe a todos pelo menos no essencial da vida. Crescemos, vivemos e morremos sozinhos, numa solidão que pode ser mais ou menos acompanhada e partilhada. Mas esse dado da existência não nos impede, como o outro (no caso, o homem do conto), de sermos solitariamente solidários, que é, em muitos casos, o máximo que podermos ser. Não se pense que esse gesto conta pouco. Conta muito. Acrescenta. Faz cada vez mais a diferença. Volto à imagem: comece-se por arregaçar as mangas em cada bairro, em cada prédio, em cada apartamento, em cada quarto, em cada coração. O resto logo se vê.

 

(crónica publicada no jornal que acompanhou a edição de 2012 do Lisboa Capital República Popular)

publicado por Nuno Costa Santos às 11:33
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5 comentários:
De Sofia a 12 de Maio de 2012 às 13:26
Ter ego é como ter pêlos; ninguém gosta de ter, mas toda a gente tem. Convém não esquecer que só é "anormal" ter pêlos nas unhas.
Está para nascer o solitário que é solidário para se sentir pior; e esse, sim, vai ter pêlos nas unhas.
De M. a 12 de Maio de 2012 às 13:38
Obrigada pelo texto. Fez muito sentido neste momento tão estranho em que eu estou a viver.
De Helena Marques a 12 de Maio de 2012 às 18:11
Maravilhoso.
De andreia am a 14 de Maio de 2012 às 10:38
"JUST DO IT." and "Nothing else matters."

beijinhos.
De Anónimo a 1 de Junho de 2012 às 10:45
Muito bonito. Já ouvi outra versão e que é a de que quem se dedica à solidariedade, nomeadamente as IPSSs, o fazem apenas para promover vidas luxuosas aos seus colaboradores. Mas concordo que o facto de ajudar tem um pouco de egocêntrico sim. Queremos sentir-nos vivos porque somos em relação aos outros e nunca apenas sós de frente a um espelho...
Ana Marta Sales

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