Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

deus não existe, foi o que as cartas disseram

Dizia há dias um estudo que há cada vez menos católicos. Não duvido. Duvido é que haja cada vez mais ateus. A malta gosta de se armar em durona. Qual adolescente em furiosa afirmação pessoal, gaba-se da sua ciência, do seu banho de mundo, da sua lucidez, da sua tecnologia, enquanto troça dos tontinhos que ainda vão à missa e ouvem a Renascença. Porém, debaixo da ilusão do cepticismo, da maturidade, da razão, nunca foi tão absurdamente crédula como agora (sublinhe-se a diferença entre crédula e crente).

 

O vulgo moderno revoltou-se contra a religião dos papás e abraçou o tutti-frutti da espiritualidade. Ele, basicamente, acredita em tudo. Tudo menos – Deus nos livre – o que seja católico.

 

Ele acha o Budismo uma escola de vida, o yoga uma prática extraordinária, os deuses hindus um mistério fascinante. Apercebeu-se de que há um karma na sua vida. Tem agora a casa cheia de velas com aroma a cedro para se libertar dele. Quando tem tempo, faz meditação (sim, porque, para ele, “rezar” é a coisa mais careta do mundo, mas “meditar” já é toda uma outra conversa). Anda a tentar equilibrar os shakras. Frequenta gurus, terapeutas e massagistas-que-sentem-coisas. Já foi a uma consulta de numerologia e a muitas de astros. Lançaram-lhe as cartas, leram-lhe a sina, fizeram-lhe o eneagrama; para a semana, tem marcada uma constelação familiar.

 

Desde que foi à Índia, despertou nele uma espiritualidade inquietante. Anda a tentar descobrir o que foi na outra vida. Tem muito respeito pelos islâmicos. Acha que não devíamos ir lá meter-nos com os princípios deles, que não se deve brincar com o facto de serem poligâmicos e esconderem as mulheres e lapidarem as adúlteras. A Igreja Católica é que é uma vergonha, que não autoriza o preservativo.

 

Tem em casa uns budas e pedras para diferentes ocasiões (uma que afasta o mau olhado, outra que atrai boas energias, outra que o faz estar bem consigo mesmo). Reorganizou todo o apartamento de acordo com o que lhe explicou uma amiga acerca do feng-shui. Vai lendo uns livros tipo “O Segredo” e tenta segui-los à risca. Alimenta-se de acordo com um plano rigorosamente adequado às necessidades energéticas do seu corpo. Espalhou incenso pelo andar. Tatuou um Vishnu na omoplata direita e um Shiva na esquerda.

 

Reserva bilhetes na primeira fila para ouvir o Dalai Lama na Gulbenkian, mas acha uma vergonha que se feche o Terreiro do Paço para o Papa. Não compreende que faz aquela gente toda em Fátima enquanto compra um bilhete para o Tibete.

 

No Brasil, disseram-lhe que tem um anjo e, desde então, que lhe parece senti-lo. Bebe um chá às terças-feiras que dizem que purifica e tem momentos em que, quase, quase consegue ver a aura das pessoas.

 

Acredita no PT e no psiquiatra, no poder curativo do pensamento positivo e a verdade é que, da última vez que lhe lançaram os búzios, acertaram em quase tudo.

 

Tem pena da mãe, que ainda acha que vai para o céu. E do pai, que tem medo de ir para o inferno. Estava capaz de acender uma vela de cedro por eles ou de meditar um pouco em volta da ingenuidade dos velhos. Mas são um caso perdido. Comem tanta carne vermelha.

publicado por Alexandre Borges às 01:23
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5 comentários:
De Nuno Costa Santos a 23 de Abril de 2012 às 15:06
Eh eh! Muita bom!

(e olha que tenho simpatias budistas)
De Fernanda Marques a 23 de Abril de 2012 às 19:25
Sou protestante, mas também penso que cada vez mais se torna verdadeira uma frase atribuída a Chesterton: Quem já não acredita em Deus acredita em tudo.
De Isa a 24 de Abril de 2012 às 16:30
<3

De Sandra Almeida a 28 de Abril de 2012 às 21:40
Alexandre Borges, sou sua fã.

E olha que li isto com uma certa cagufa... ;)
De Alexandre Borges a 29 de Abril de 2012 às 00:13
:) (juro que a parte da carne vermelha não era nada de pessoal...) Bjs

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