Sábado, 31 de Março de 2012

Fachada

O seu nome é Fachada. B Fachada. Anda aí há uns tempos (desde “Viola Braguesa”, de 2008) e tem uma virtude que causa desespero, melancolia, ressentimento: trabalha muito e bem. Para usar o jargão crítico que convém sempre a estas circunstâncias, faz parte de uma novíssima vaga da música portuguesa, que é demasiado vaga para estar aqui a sistematizá-la em unidades e características. Fachada tem lata, descaramento. Lírico e irónico. Tanto cantarola cançonetas de amor como destila sarcasmo nas esquinas. É – passe o palavrão – um cantautor multifacetado nos temas e na instrumentação. Compõe, escreve, canta e tanto se safa bem com as guitarras clássicas como com os synths. E com os metalofones. E com as garrafas de água (é verdade). O que lhe interessa é passar musicalmente a sua visão do mundo – ele que, mestre na auto-paródia com sentido, sentenciou no temazinho de “Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado”, primeiro longa duração: “Vou trabalhar que nem um cão para fazer cada canção/ vou ser bastante puritano para fazer dois discos por ano/ a ver se me torno de vez no Frank Zappa português”. E a verdade é que, Zappa ou não Zappa, Fachada não tem sido só fachada. Tem cumprido a promessa. Os discos vão saído – e depois do referido álbum, onde pontuam crónicas de costumes como “Zé!” (“Chamo-me Zé!/ Vim para aqui a pé e agora tenho um cadilac”) e valsas (aparentemente) púdicas como “O Ciúme e a Vergonha”, já saiu mais um mais ou menos do mesmo tamanho onde o apuro na produção não fez apagar a verve romântico-irónico-literário-qualquer-coisa das composições e respectivos verbos.

 

O álbum “B Fachada” traz, numa versão mais clean e apresentável ao sogro, temas orelhudos, de fazer bater o pé no chão, como “Estar à Espera ou Procurar”, e poemas sobre o hobby do divórcio como “Kit de Prestidigitação” (“Já só tenho um rim para te emprestar/ o coração tu já levaste na pensão alimentar”). Mas não faltam também supremos hinos amorosos como “Cantiga de Amigo” e a lindíssima “Velha Europa”, que traz um verso que é um programa de solidão e saudade: “Perguntei ao vento se trazia um cabelinho teu”. Sim, mais uma vez Fachada assegura quase tudo na epopeia – dos primeiros rascunhos às segundas e terceiras e quartas vozes. A sua obra já se amontoa cá em casa - e inclui um incorrecto álbum para crianças e o sonoramente sujo EP “Há Festa na Moradia” onde pontuam canções em que se sente a gratidão por alguns compositores de música popular portuguesa como Fausto e Sérgio Godinho. E uma refinada atitude de sardónica arrogância, algures entre o gesto zombeteiro em relação aos meios intelectuais-artísticos lisboetas e um terno interesse pela tradição rural lusitana, cada vez mais ignorada pelos ruídos, sonoros e humanos, das urbes.

 

E é justamente com ruralidade que começa o disco recém-editado de doutor Fachada. “Deus, Pátria, Família”, trilogia outorgada e defendida no seu bairro e no seu tempo por um personagem política de apelido Salazar e agora também o último fôlego de uma alma que ainda só vai (escândalo) na década dos 20. O galo que abre o novíssimo disco é um bicho provocador. B não veio aqui para jogar ao Farmville. Veio para partir a louça. Para comunicar ao mundo a sua visão desse mundo. E – é a vida - nem sempre tem adjectivos bonitos para dizer. O disco só tem uma música – que dura 20 minutos. E o que fica da sua audição é o supremo desabafo sobre o decadente estado da histórica Nação lusa, cada vez mais dependente de amadorismos, esmolinhas e jogadas de pseudo-charme vindos do estrangeiro. Há aqui ironia, mas, mais do que ironia, há sarcasmo. Topem a letra: “Portugal está para acabar/ É deixar o cabrão morrer/ Sem a pátria para cantar/ Sobra um mundo para viver/ Chegam flores do estrangeiro/ Já escolhemos o coveiro/ Por mim é para queimar/ Mas não quero exagerar”. Imagine-se uma alma sensível a ouvir isto. A conversa não é a do incitamento neorealista à luta nem ao malhanço nos “poderosos”. É a constatação conceptual (conceptualmente emocionante) de uma identidade que vai falindo e aquele tipo de atitude provocadora (e precisamos tanto dela!) de quem, habitando um prédio que se deixa cair melancolicamente em ruínas, diz que o melhor é mandá-lo abaixo. É, sim, é o mais patriótico dos gestos. Aquele que destrata a família porque a ama profundamente. Em termos formais está tudo bem trabalhado: quando Fachada grita as suas “brutalidades”, não o faz à maneira de um trash metal festivaleiro. Não. Há leveza e elegância na forma como diz - e na instrumentação de baile que acompanha as palavras. O que lhes dá mais força. O que lhes imprime o efeito de um “acordem!”. Mais uma provocação do bardo e cidadão fachadês. Que, em jeito de ambígua nota final, afirma encontrar no privado as águas onde as naus, agora transformadas em barquinhos para casais, podem em tranquilidade navegar: “Ninguém quer mais que ser um pai babado”.

 

 

(texto publicado na revista "Dicta & Contradicta")

publicado por Nuno Costa Santos às 02:33
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