Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Cinzento

 Não partilho do desentusiasmo crítico por "Intimidade", de Woody Allen, que vi ontem à noite (reparem que não escrevi "revi"). Houve mesmo momentos do filme que achei muito fortes - a cena da festa em que é cada vez mais notório o mal estar entre as irmãs e a sua nova madrasta é um deles. O que me desiludiu no filme foi o suicídio da mãe. Um efeito melodramático demasiado fácil. Dizem que está aqui presente a influência Bergmaniana e Tchekhoviana em Allen. Reconheço a primeira, não tanto a segunda (aliás, de Tchekhov encontro apenas um certo perfume do pensamento "Se tens medo da solidão, não te cases"). O suicídio da mãe "mar adentro" parece-me demasiado épico para ser considerado uma herança do autor de meias tintas (é um elogio) que era Tchekhov. Nos contos de Tchekhov o mundo tem muitos matizes e hesitações  e não acontece grande coisa. É isso que procuro nas suas pequenas histórias e nas do seu discípulo Carver - começam a meio, acabam a meio. Aqui, pelo contrário, acontece. Aquele suicídio no mar é uma forma de heroísmo. Prefiro os passeios, os diálogos inconclusivos, o peso do ar das tardes, os rostos a olhar as ondas pela janela, a lenta desilusão que vai encurralando as almas entre quatro paredes. O cinzento da vida sob a forma de arte.

publicado por Nuno Costa Santos às 14:52
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7 comentários:
De Joaquina Pepinate a 3 de Abril de 2008 às 15:07
sim, percebo-o, trazer assim no hálito o cinzento das tardes... foda-se, sei tão bem o que isso é.
De Ana Cristina Leonardo a 3 de Abril de 2008 às 17:19
os suicídios nem sempre são épicos. na realidade, quase nunca
De Nuno Costa Santos a 3 de Abril de 2008 às 18:09
Não sei, Ana Cristina Leonardo. Mas percebo o seu ponto. Calculava, confesso, que a passagem iria gerar notas como a sua. É tema delicado. Aquele suicídio no mar é épico - é um gesto largo, excepcional. É heróico (no sentido lato do termo - usado, por exemplo, por Carver em "Heroísmos não, por Favor"), em contraposição aos movimentos comezinhos do dia a dia. Acabo de dar um toque na frase, para a tornar um bocadinho mais rigorosa: aquele (não, o) suicídio no mar é épico. E é um momento épico-dramático no filme.
De Ana Cristina Leonardo a 3 de Abril de 2008 às 23:51
Percebo o seu ponto. De qualquer forma, mais do que o suicídio da mãe, o que eu li nesse filme (atenção, não o revejo há algum tempo) foi a tragédia daquela irmã desassossegada sem talento para exprimir o desassossego. Do que é que ela é exemplo se não dessa «lenta desilusão que vai encurralando as almas entre quatro paredes» de que fala?
De Ana Matos Pires a 4 de Abril de 2008 às 01:01
Há muitos suicídios épicos, na verdade quase todos, sobretudo se o termo estiver a ser usdado no sentido de difícil, violento ou extraordinário (épico também significa isso). Se o olharmos como sinónimo de heróico já é bastante menos comum, menos vulgar, mas ainda assim existem uns quantos suicídios que o são - lembro, por exemplo, o hara-kiri. Independentemente de tudo isso, é sempre um comportamento que envolve um grau de sofrimento muito grande o que, em termos cinematográficos, lhe dá uma inevitável carga dramática. No filme em questâo esse input nâo se justificava, acho eu, pelo que concordo com o Nuno - era desnecessário, foi uma estratégia óbvia e fácl que o filme não precisava, já existiam três seres suficientemente sofredores, as filhas.
De Ana Cristina Leonardo a 4 de Abril de 2008 às 09:16
não percebo a diferença entre épico e heróico. no filme a mãe mata-se mar adentro, a lembrar o suicídio de virginia woolf. acho que é para aí que a cena remete. não me parece, contudo, que o gesto tenha a grandeza de uma morte escolhida à maneira dos gregos.
quanto a ser uma cena de "estratégia óbvia e fácl" julgo ser afirmação demasido peremptória e genérica, principalmente alicerçando-a no argumento de que «já existiam três seres suficientemente sofredores, as filhas». O sofrimento não é matemática.
De Ana Matos Pires a 5 de Abril de 2008 às 12:47
Não se trata, quanto a mim, de matemática, é mais "para quê procurar o momento cinematográfico alto se ele já lá está?". E o facto de ter feito referência ao sofrimento das três filhas foi para contrariar a Cristina quando referiu o desassossego da irmã sem talento - para mim existem três desassossegadas.

Diferenciei épico de heróico porque lhe dei o significado que referi, um dos possiveis, é nesse sentido.

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