Terça-feira, 27 de Março de 2012

Detesto gatos

Tenho dormido numa casa que não é minha. É numa rua bonita, com muita luz. Durante os fins de semana, o barulho de gente que se diverte não me deixa dormir. Acordo estremunhado mas a algazarra não me irrita e muito menos me entristece.  Os gritos, os risos, as correrias lembram-me dias mais felizes. Momentos, sensações que tive, tempos que não regressam mas que não me trazem melancolia, apenas a consciência de os ter vivido bem e a certeza de que aquela já não é a minha vida. Como uma truta que vai descendo o rio, até pode tentar lutar contra a corrente mas o esforço que fará apenas a vai levar mais depressa para a foz. A boa, a única maneira é deixar que o rio nos leve suavemente.

A rua é bonita mas não é minha. Nunca será. Não foi por aqui que passou o meu rio, não é este o meu leito. É um bocado de madeira que a corrente trouxe e me fez parar. Sei que não há ramo que pare a água e daqui a nada seguirei o meu rumo. A estrada, os passeios, as casas pouco importam. A minha rua é feita de sentimentos, de memórias, de bons e maus momentos, sobretudo de gente, da minha gente.

Vejo um gato daqui da janela. Está para ali, deitado na pedra quente, ao sol que o aquece. Sempre só. Estica de tempos a tempos um corpo gordo, afia as unhas de olhos fechados como se aquilo fosse fundamental para que se sinta vivo. Come e dorme por instinto. Olha duma forma opaca para quem lhe dá atenção como se não percebesse por que diabo alguém o fará.

Detesto gatos.

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:19
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6 comentários:
De iluminação a 29 de Março de 2012 às 12:24
Como é que um ser humano é possível detestando gatos?
De Susana a 11 de Abril de 2012 às 19:37
Eu também detesto gatos.
De Luis a 13 de Maio de 2012 às 16:50

Um gato, em casa, sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.


Nuno Júdice, Assinando a Pele, Assírio & Alvim, 2001

Pois eu adoro gatos !!
De teresa ferreira a 24 de Junho de 2012 às 16:28
Confesso que me identifico com as suas ideias e comentários, mas fiquei desiludida ao saber que não gosta de gatos. Acontece que eu, na minha modesta opinião, acho que o Pedro tem alma de gato e daquele gato vadio que gosta de percorrer as ruelas demoradamente ao luar. Aconselho-a a ver o clássico "breakfast at Tiffany`s", sobretudo o plano final, que me comove sempre. Soberbo! Ou a banda sonora de "Cats".
E é por achar que o Pedro tem alma de gato que o acho tão atraente...
De Mário Dias a 13 de Setembro de 2012 às 02:41
Ó Pedro... havemos de discutir isto um dia destes.
De Joana a 1 de Outubro de 2012 às 00:02
Você não detesta gatos, inveja-os.

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