Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Epígrafe a um desastre (subtítulo: por uma canção de cohen)

 

Não foi fácil. Nunca é fácil. Entendam-me: não estou a queixar-me, mas não foi fácil entrar aqui. Entrar, presumo que seja sabido do senso comum, é um problema – e não há nada errado com isso, um homem para ser homem tem de ter pelo menos uns cinco ou seis problemas. Exemplo: derivado da minha absoluta falta de originalidade e total incapacidade para o improviso tive de, na frase anterior recorrer a:

- um cliché (“um homem para ser homem”);

- uma paráfrase de uma tira de Quino (os mencionados “cinco ou seis problemas” necessários para se ser gente).

Ao problema em entrar junta-se o da “absoluta falta de originalidade” e adiciona-se o da “total incapacidade para o improviso” e vou com três problemas, a meio caminho de ser homem que é homem.

Acima de tudo quero que compreendam o seguinte: a entrada deste texto só serviu para demonstrar a exactidão com que empreguei “paráfrase” em vez da não raras vezes erradamente aplicada “citação”. Essa demonstração de domínio linguístico – noto agora – é imediatamente reduzida a cinzas pela menção (reparem: agora é “menção” e não “paráfrase”) a um mero bêdêeiro mainstream, a um tireiro das mesquinharias diárias. A notável sofisticação da entrada rui de imediato perante o recurso a um autor óbvio – e pela repetição abusiva de derivações adverbiais de “imediato” e “recurso”.

O Pedro Vieira tinha-me dito, qual pai que prepara o filho para o mundo dos homens, “Vais ali e clicas onde diz 'Entrar'” e, juro, parecia simples. À parte (ou “aparte”, quem souber da nossa língua que me ajude, eu só vim aqui para ver, meter conversa não é comigo) a virose que atacou o meu teclado e me obriga a usar luvas descartáveis de cada vez que tenho a chance de digitar, parecia simples.

Mas quando cheguei ao momento de “Entrar” – resoluto em fazê-lo – pediram-me nome e senha. Há sempre uma senha quando se quer entrar, uma palavra que abre a janela de oportunidade que temos, no timing certo, de optimizar. Tenho aqui um power-point que prova isto, mas infelizmente não consigo abri-lo.

Há um jogo, nisto de entrar. Uma linguagem que deve ser comum para dois seres se aproximarem e unirem. Não basta o nome certo, o nome é contigente, necessária é a senha, que quem deixa entrar conhece e quem quer entrar tem de ter a habilidade de descortinar por (imagino) ínvios modos.

Ainda mais complexo tudo se torna quando vários são os seres a propiciarem-se ao jogo. Wittgenstein explica isto melhor que eu, mas o importante aqui é deixar sub-repticiamente uma alusão (e não “menção”) ao filósofo, de modo a legitimar este arranque errante.

O que se faz quando apesar de devidamente aconselhado não se consegue entrar? Há quem, retesado no seu orgulho, esconda a sua falência penetrativa, há quem minta e diga que sim, entrou, nem vou falar mais nisso mas lá que entrei entrei, podem ter a certeza, há quem adie – perante a expectante plateia de peritos em entrar que, todos, já entraram e sabem como se entra, sai e (hossana) fica – a anunciação ao mundo da sua sorte ou azar, assim rodeando-se de um mistério que salva o seu falhanço. Digo “salva” não no sentido pós-moderno-informático de “grava”, mas no sentido judaico-cristão de “redime”.

E há quem se humilhe, rasteje de novo ao paternal patriarca que lhe indicara o caminho e pateticamente peça que lhe restituam a esperança – o que foi o caso.

Porque eu tinha sonhos: queria que, quando me pedissem o nome, eu pudesse dizer “João Bonifácio” e que a senha fosse “John Holmes” e que a simples menção ou citação ou alusão ou referência ou o caralho que o foda a “John Holmes” servisse de íntimo sussurro com a caixa negra do blog, assim abrindo as portas ao mundo de fantasias que se encerra – falange, falanginha, falangeta – na ponta dos meus dedos.

Era impossível. O nome e a senha tinham sido previamente definidos pelos meus parceiros, pelos meus pater e mater familias de alegre concubinato de língua. Digo-vos: há uma linguagem entre dois seres e toda uma outra linguagem entre um grupo e as duas linguagens só nos flancos se tocam (e a medo). O forte impõe o acesso ao grupo e ao fraco nada resta que submissamente aceitar o seu papel menor, “like a shy one at some orgy”*.

Em entrando, prometiam-me, eu podia “gerir”. Era um “gerir” vago, uma cenoura à frente do burro (cliché). Mas quem domina a linguagem conhece tanto os ritmos do organismo como o frémito do sangue do dominado (repetição), “entrega” a informação (anglicismo) a seu bel-prazer (duplo cliché), sabendo de antemão (e aqui escuso de assinalar a recursividade a expressões idiomáticas, demonstrativa da incapacidade de manuseamento da língua deste aspirante a teclante) como o aliciar ao jogo que domina.

Dizia um dos Pedros (repare-se que no simples facto de não saber os sobrenomes se encerra um fatal erro social conduzível ao opróbrio e à exclusão) me seria “possível enviar imagens” usando o meu “ícone” com “a montanha amarela”. Juro que em vez de invadir o local em que pretendia entrar, estaquei, à porta, de pavor com o conhecimento prévio que o Pedro detinha sobre o meu ícone e a sua particularidade. O pânico surgiu depois, quando ademais me informou o meu guia que, se assim quisesse (e eu apenas queria entrar, a minha imaginação acabava aí, não queria que derrubassem as minhas fantasias com a bruta burocrática realidade), eu poderia “colocar vídeos”. Isto, para – como atrás me defini – um “shy one at some orgy”, foi o puro terror.

Folgo em anunciar-vos que entrei. Guiado pelos colegas de crime, entrei. Gostei do cabeçalho. A pequena corrente de electricidade a percorrer-me o corpo, a agitação dos dedos dos pés, a humidade na ponta dos dedos da primeira vez começa a tornar-se-me agradável. Ainda temo que o meu periclitante uso da língua seja infectado pela maior destreza dos restantes locatários digitais. Mas desconfio que a possibilidade de me viciar nisto crescerá exponencialmente à usura e, azinha para a derrota, ainda desato a pôr os nossos vídeos na net. Se os virem, entrem à vontade. E cliquem. Julgo poder falar em nome de todos e dizer que: nós queremos muito ser clicados.

*Verso de Leonard Cohen, que se encontra em "Songs Of Love and Hate".

publicado por João Bonifácio às 19:46
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2 comentários:
De jonasnuts a 19 de Março de 2008 às 22:54
Duas notas,

Se na primeira vez, a humidade aconteceu na ponta dos dedos, alguma coisa correu mal. Toda a gente sabe que a humidade da ponta dos dedos dá cabo do teclado.

Quanto ao uso da língua, e da menor destreza da mesma face a línguas mais batidas nestas coisas, não se preocupe, acredite em mim quando lhe digo que em questões de línguas, a prática leva à perfeição, e assim como assim, para primeira vez, a sua língua esteve muito bem.
De Ana Matos Pires a 20 de Março de 2008 às 18:38
Uau! Grande entrada.

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