Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Cohen de bolso

Não sei se sabem, mas antes era tudo mais ordenado: as senhoras lidas e religiosas traziam, à falta de bolsos, o seu Livro das Horas (que lhes dizia o que rezar a cada momento do dia) na mala, os escassos eruditos carregavam penosos Dostoievskis, os homens de negócios escondiam o rosto em livros de balanços. Os que não sabiam ler tinham um lenço no bolso e escarravam no lenço.

 

Falar com Deus através da oração, discutir o sentido do mundo numa tertúlia violenta, esconder o rosto em papel quadriculado, escarrar - é tudo a mesma coisa.

Mas já ninguém traz um Livro das Horas na mala. E já ninguém anda de lenço no bolso pronto a atirar para ali a mais honesta das suas apreciações do mundo.

A net dá-nos a rede que Deus ou a literatura ou a ciência ou um lenço antes nos davam: encomendamos mantas menos curtas, vemos adolescentes da Bobadela com fotos em posições reumaticamente perigosas a dizer-nos dá-me cinco. Trocámos a foto do meu mai novo pelo nudie da mai nova estrela do Div-X que nunca chegámos a ver.

 

Que trazemos hoje nos bolsos?

Os putos têm iPODs no lugar da culpa, os mais velhos e mais ricos substituiram a Parker por aquelas canetazinhas ridículas dos ridículos micro-computadores.

Os outros têm telemóveis, pénes (aqueles objectos abaulados onde guardamos textos), trocos, chaves de carros a prestações - são pobres os bolsos das pós-modernidade. Não apenas os bolsos mas os próprios casacos: nem sequer aguentam um descosido, à primeira linha que se parte são trocados por outro.

 

Mas toda a gente devia ter um Cohen de bolso. Um pequeno receituário de versos do mestre pronto a usar em casos de aperto. Poderia ser um Cohen de bolso de camisa, de bolso de trás das calças ou das saias, mas um Cohen portátil, sucinto, prático e empiricamente utilizável.

 

Ou mesmo (estou a pensar nas crianças) um bonequinho minúsculo com o rosto dele: premia-se num botão (já nem arrisco dizer 'dava-se corda') e ele abria a sua boquinha mecânica e cantava 'Don't go home with your hard on' - quem precisa de aulas de sexualidade quanto se tem um Cohen de bolso?

O mini-Cohen (uma espécie de Bimbi-existencial-judia) seria igualmente útil, pelo menos de manhã, quando o boneco cantasse 'Hey, prince, you need a shave'.

 

Há um Cohen de bolso para todos: os amantes desesperados pela falta da atenção da amada, os desesperados por excesso de atenção de várias amadas, os simplesmente desesperados, os que pensam na Guerra Fria durante a sodomia, os que acreditam que aos EUA chegará a democracia, os que preferem uma aliteração a uma rima.

Há um Cohen para as senhoras que guardam silenciosamente as suas perversões: vestia-se o bonequinho com uma famosa gabardina azul, premia-se o botão e.

Há um Cohen para os capitalistas com coração: premia-se no botão e ele cantava "Diamonds in the mine".

 

Imaginem os casais ao Domingo, a brincar ao Cohen de bolso, a trocar citações sobre laranjas e chás. Velhos a meterem conversa com velhas graças a um dito do seu Cohen de bolso sobre Cristo. Miúdos a programarem férias em NY - graças a quê? Ao Chelsea Hotel que o micro-Cohen cantaria. E os miúdos, a descobrir a desgarrada de um recreio de escola primária, atirariam, com a ajuda do seu Cohen de bolso, pássaros no arame à cara do bully, enquanto o adolescente deprimido arranjava uma namorada graças à história do rapaz que tinha uma mão numa rapariga e outra no suicídio que o Cohen de bolso cantaria.

 

Um Cohen de bolso: micro-bolinhos-da-sorte que poderiam vir em várias cores, material não cancerígeno, biodegradável (bio-decadente), sem entrada, a pagar apenas no além.

 

Toda minha religião, o que me ficará por dizer, os passos por dentro da sombra, cabem num poema de Leonard Cohen:

 

he was watching for a card

that is so high and wild

he'll never need to deal another.

 

Sou um homem de sonhos, sonho com um Cohen de bolso. You go your way, I'll go your way too, Leonard. 

 

Sinceramente*,

JB.

 

("Sincerely, L Cohen", era o final de Famous Blue Raincoat.)

publicado por João Bonifácio às 09:09
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7 comentários:
De Joana Lopes a 4 de Abril de 2008 às 15:32
Mas que maravilha!
O melhor post » imaginável para se ler numa bela tarde de 6ªf .
De Alexandre Borges a 4 de Abril de 2008 às 16:34
grande poste, João.
abraço e bom fim-de-semana!
De Nuno Miguel Guedes a 4 de Abril de 2008 às 19:04
Grande crónica, sobretudo para quem partilha da mesma dependência (às vezes, nos melhores momentos, das mesmas angústias).

Um abraço.
NMG
De gorgulho a 4 de Abril de 2008 às 19:24
1, 2 ,3, teste (carregando no botãozinho):

estou a escrever-te só para saber se estás melhor [...]
e, se alguma vez passares por estes lados...

;)

não há dúvida! este gadget dá um jeitão.
De menina alice a 4 de Abril de 2008 às 20:22
Um texto cheio de verdades úteis e absolutas, excepto uma: "Sincerely, L Cohen", era o final de Famous Blue Raincoat. O passado não cabe aqui, minha fatia de queijo manchego com um Jameson de fim de tarde.

Vês como vim cá, crl?! ;)

Isto de deixar caracteres por usar, intimida-me um coche... (3092 no caso)
De Pedro a 6 de Abril de 2008 às 00:46
:)
De Plaid a 6 de Abril de 2008 às 22:51
Começo a ganhar o hábito de ler os teus textos, como leio os do maradona ou do António Figueira. E tenho sobretudo vontade de criar, também eu, esta espécie estranha de jornal íntimo que é um blog.

Que belo texto.


Plaid

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