Sábado, 10 de Março de 2012

uns quantos megas de memórias históricas

Acho que todos concordamos que ser acordado pela histeria e urgência de um alarme de fogo não é um bom auspício para o dia que se avizinha. Pior ainda, é o pânico que nos conquista quando corremos sem plano pela casa a pensar no que devemos levar e se podemos mostrar o nosso pijama aos vizinhos. Depois de alguns episódios semelhantes já consigo, porém, sair descontraidamente de casa para conversas de circunstância com empantufados (há algo nesta intimidade forçada que une a vizinhança, como se a roupa de dormir abolisse estatutos sociais).

 

A primeira vez que isto me sucedeu despachei-me a vestir umas calças e corri para salvar o portátil, conferindo-lhe logo ali o estatuto de objeto mais importante da casa. É um gesto pouco romântico que não fica bem no currículo da vida, não se equipara a salvar a primeira edição de O Retrato de Dorian Gray ou um volume das seleções do Reader´s Digest. Mas é um facto que não posso contrariar. Afinal é nas suas gavetas informáticas que estão guardadas as minhas fotografias, o meu trabalho, a música, os textos e mesmo alguns livros digitais. É ele – ainda não lhe dei nome, mas já tem personalidade – que sabe por onde passeio na Internet. É triste, mas ele conhece-me muito bem. Para além disso, não tem o peso dos muitos álbuns a preto e branco, armários de discos, estantes enciclopédicas e eteceteras que a geração dos meus pais, numa situação semelhante, teria de carregar há uns anos para não perder as memórias.

 

Agora carregamos as nossas memórias físicas, comprimidas e arrumadinhas, numa máquina com uns três, quatro quilos de peso. Confiamos que o computador seja nosso amigo e não se decida a fugir com a nossa história. Andamos com ele pela cidade, levamo-lo para a biblioteca, o escritório, para casa dos nossos amigos. Até viajamos com ele. Conseguimos, assim, ter a nossa casa sempre às costas, seja em que continente estivermos.

 

Ou seja, estamos dependentes dele. Mesmo que de vez em quando nos lembremos de fazer cópias de segurança da nossa memória, conscientes de que qualquer relação pode chegar ao fim, teremos sempre de a confiar aos humores imprevisíveis de uma outra máquina. É uma relação injusta. Porque se nos esquecermos das palavras mágicas de acesso ao nosso e-mail, rapidamente se aniquila um passado epistolar eletrónico. Para além disso, estamos sempre a ouvir que a máquina tem sempre razão. E será ela a decidir quando irá desta para melhor, levando consigo uma grande parte dos nossos megabytes de vida passada.

 

publicado por Ricardo Correia às 14:48
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