Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Sobre as crónicas que não querem ser crónicas ou A pieguice do cronista

 

Já se sabe, até ao enjoo, que todos os cronistas, em algum momento, começam uma crónica falando da falta de assunto. Nunca o fiz e prometi que não o faria, embora as minhas resoluções nem sempre tenham a abnegação de um general dos antigos, vacilam nos joelhos diante de uma tentação como adolescentes japonesas no camarim de um ídolo pop teen. Como se diz por estes lados: “Sou facinha.” Mas não será ainda hoje que venho para aqui compadecer-me da falta de assunto.

 

O meu problema são as crónicas que não me apetece escrever – por preguiça, aborrecimento e procrastinação patológica –, mas que se vão empurrando contra a minha pele, seres alienígenas que germinam dentro de mim, esperando poder saltar cá para fora a fim de se mostrarem, vaidosas como são as ideias, as impressões e os bitaites, mas permitindo-me dessa forma seguir adiante com outras obsessões. E por isso há um alívio quando se emancipam, cruzando derme e epiderme, e seguem seu caminho. 

 

Essas crónicas que não quero escrever começam do nada, um grão, um microfilme, pode ser uma frase, uma imagem, um gesto. Por exemplo: há umas semanas, numa noite desse calor que faz estalar os insectos, caí nas águas voluptuosas da piscina de uma amiga. E estar ali, no verão, rodeado de crianças que faziam bombas e garotas que falavam e davam risinhos literários nas espreguiçadeiras, estar ali, banhado no azul e no cloro, olhando as árvores, o céu, as estrelas e todas as cenas que fizeram das nossas noites de verão algo de memorável, estar ali foi motivo para que a imagem de uma piscina noctívaga se acendesse dentro de mim, desde então, como as luzes debaixo de água. Talvez porque tudo o se parece com as férias grandes, quando as férias grandes iam de uma ponta à outra do verão, nos leve a pensar em viagens épicas no dorso de bicicletas e beijos em miúdas e alguém que partia um braço a fazer qualquer coisa estúpida como saltar do muro para a piscina.

 

Guardei a imagem da piscina para outros escritos. Mas havia mais um bicho a crescer dentro de mim, uma criatura que nasceu da observação do comportamento dos zombies da tecnologia – amigos que cruzam um almoço passando o dedinho na telinha do iPhone, as crianças que me foram apresentadas num jantar, mas que nem levantaram as carinhas robotizadas do jogo no iPad, o adolescente que, no elevador do meu prédio, fitava qualquer coisa no seu gadget prateado com o mesmo olhar de uma vaca com quem, há alguns anos, me cruzei nas planícies verdes da Dordogne.    

 

Consegui refrear, até agora, o crescimento desse bicho – sei que quer atingir a maioridade e ir por aí, decretando sentenças sobre o uso dos telemóveis, lamentando o impulso que nos leva a querer saber tudo a toda a hora sobre toda a gente, sobrecarregando-nos e poluindo-nos com informações tão dispensáveis como ruidosas. Turn it down a notch. Vão com calma. Tirem o dedo da telinha.  

 

Talvez tudo o que escrevi até aqui seja tão inconsistente como a longa desculpa do aluno, que não tendo feito os deveres, tenta adiar a previsível confissão: “Não fiz.” Talvez todo este engonhar, esta ladainha de empata-crónicas, este deixa ver onde isto vai dar, tenha sido apenas vergonha de dizer que, há semanas, há outra coisa a crescer dentro de mim, outra ideia, imagem e alegria.

 

Quando saio de casa para correr, de manhã, entro na rua que tem árvores e casinhas e duas escolas. É tão tranquila como se no campo. E ali estão as mães, dezenas delas, esperando as escolinhas abrirem, brincando e dando colo aos seus filhos de creche, todos vestidos com t-shirts e calções vermelhos, simpáticos e espantados com o mundo inteiro: com os cachorros, os insectos, as pessoas que eles não conhecem mas a quem dizem adeus. Tudo é novo e bom.

 

Hoje um dos rapazes dava festinhas numa menininha e ela retribuía – as mães encantadas, eu feliz por estar ali e ser de manhã cedo e ter o mar tão perto. Pensei se me acontecera o mesmo que a Stephen King: depois do atropelamento, o escritor chorou ao ver o filme Titanic, e questionou-se se alguma coisa no quartinho das emoções, lá no andar onde mora o cérebro, não teria sido afectada com o acidente.

 

Mas não bati com a cabeça em nenhum lugar nem tomo medicação. E se para me livrar desta criatura adocicada que acabou de sair cá para fora, escrevendo sobre a sua felicidade matinal diante do decorrer mundano e, no entanto, tão pungente, tão cintilante e leve, da vida normal dos outros, se para evitar a pieguice de falar, no futuro, do sorriso das crianças e das manhãs de verão, tenho mesmo de sacrificar esta crónica, então seja.  

 

Bem cedo, quando saio para correr e os termómetros ainda não alcançaram os 30 graus, passando naquela rua, vendo as mães e os seus filhos, percebo que sou muito mais piegas do que gostaria de ser. Resta-me o consolo que, para chegar a esta conclusão, não precisei de ser atropelado.

publicado por Hugo Gonçalves às 20:09
link do post | comentar

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever