Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

cá se vaiandando com a cabeça entre os couratos



© rabiscos vieira

a amizade, a solidão, a ve
rdade, quase todos os temas que inquietam o ser humano têm passado pelo sinusite, com excepção do courato. esse mesmo, proveniente do porco, programado para embeiçar gente de compleição rija e queixo que se quer gorduroso e o que eu me pelo por isso. pois bem, o mercado do courato está mais retraído do que o do subprime americano, com a diferença de os porcos anónimos que o alimentam [ao do courato] não nos escavacarem o crédito à habitação e o maldito spread, mas isso são contas de outro rosário, aqui falo de orelhas. e carimbadas.

em tempos o courato foi glorioso, júlio césar nunca teve mais autoridade do que esta chicha dos deuses quando proclamava veni, vidi, vici, a orelha de porco reinava em vários palcos, à volta dos estádios, nas feiras, nos encontros sindicais, nos santos populares, no primeiro de maio, no lupanar coche real da ve
nda nova. bom, fala-se de carnes e começo a tergiversar. ponha-se então o courato nos eixos da glória que já teve e que paulatinamente vai perdendo para outras iguarias de marca roulotte, rodeadas de frascos de molho, uma miséria, ao courato não era preciso juntar adornos, bastava-nos o carimbo roxo da qualidade atestada e o pêlo hirto, capaz de provocar um suave reco-reco no céu da boca.

pior, hoje o courato caiu do olimpo dos petiscos em favor de uma série de versões softporno como as agora afamadas tapas, degustadas em cima de pão tão artificial que só pode provocar o cancro, ou o dengue, vendidas em casas bem decoradas, ch
eias de tias e yuppies super modernos e amigos da cava, da caña e do caralho a quatro, que saltitam e bradam olê, olê olê, assim mesmo, com circunflexo, que o uso dos agudos condiz mais com o povoléu que não vem com salero de berço.

quanto a mim deploro a retracção da popularidade do courato, aquela sua composição tão portuguesa, mole e gordurosa a maior parte das vezes, eriçada em pêlo grosso quando lhe pisam os calos, ou mordem as pontas, arriscava até dizer que o co
urato podia ser um baluarte da civilização ocidental ameaçada pelos barbudos que insistem em rebentar-se nos transportes públicos dos outros, que eles nem sequer comem porco, nunca se lamberam com uma farinheira embrulhada nuns ovos mexidos, nunca rilharam com os dentes o osso de uma costeleta. o courato como charneira diferenciadora de uma civilização. pensem nisto.

eu vou fazê-lo, enquanto saio de casa em busca de uma metadona, de uma substituição, quem sabe uma bifana daquelas mergulhadas na frigideira atestada de m
olho, dizem até que foi duma dessas que o fleming extraiu as primeiras penicilinas.
publicado por Pedro Vieira às 00:57
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3 comentários:
De gorgulho a 3 de Abril de 2008 às 19:51
Imperdoável! Confundir courato - a pele do reco - que se come em sandes e orelha que se come em vinagrete. Ele há coisas com que não se brinca; nunca mais leio este blogue ignaro.
De Pedro Vieira a 3 de Abril de 2008 às 20:11
o caro amigo tem a sua razão. sucede que em termos de ilustração e de título da posta a liberdade gastronómica de apensar o courato às orelhas foi decisiva. e se o caro gorgulho vem ao sinusite à procura da verdade está bem tramado, isto aqui é um tugúrio infestado de mentir...efabuladores. grand ebem haja e bom apetite, de mãos dadas combateremos a extinção do courato, mesmo que das orelhas que, coitadinhas, também têm pele.
De gorgulho a 3 de Abril de 2008 às 22:01
bem... a bela sopa de osso de presunto com que acabei de me banquetear predispos-me à generosidade - o tinto clandestino que o meu pai me traz da terra às escondidas da ASAE e da UE ajudou, confesse-se - pelo que resolvi ser indulgente.
por outro lado, não posso negar que a ideia profundíssima d'"o courato como charneira diferenciadora de uma civilização" é assaz tremendamente (olá JB) apelativa e cala tão fundo na minha alma que me sinto inclinado (o tinto, lá está..) a continuar a ler-vos.
por esta vez, escapam; não deixarei, todavia, de estar atento a faltas de rigor em assuntos de tão sério jaez.

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