Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Dorme, meu pequenino

Percebo bem este rapaz. Também sofro desse que pode ser considerado um dos males maiores na humanidade. Já sofri mais, é verdade, mas ainda posso entrar na categoria, nem que seja por solidariedade e compaixão. Os insones (e os ex-insones, sempre disponíveis para voltar à tribo dos acordados), deviam fazer parte de uma organização secreta. De uma maçonaria de inquietos. Os insones de cada bairro deviam poder encontrar-se todos de madrugada numa sala e falar demoradamente dos seus dramas, dos sonhos que acabaram de ter, dos problemas do universo, do Aimar e do Miguel Relvas.

 

Ser insone não é para meninos, não. Faz pensar na tortura do sono - só que determinada pelo pior dos PIDES, a nossa cabecinha, os nossos nervos e inquietações, algumas delas pouco evidentes. Muitas vezes o insone não percebe por que é insone. Ele até tem a vida resolvida. Aconteceu-lhe ser assim e faz de tudo para não o ser.  Não é muito vulgar encontrar alguém que se gabe de ter insónias, que chegue ao trabalho e diga: "Pessoal, sabem uma coisa? Sou dos piores gajos a dormir lá do bairro!". Não há maior especialista na arte do zapping. Não há melhor crítico de TV de programas obscuros, de documentários sobre inanidades. Não há tipo que leia mais as piores tretas - aqueles anúncios que ninguém lê nos jornais e revistas - do que o insone profissional. O insone já não conta só carneirinhos. Conta até pulgas. E nada.

 

Precisam de ajuda, de companhia. Ninguém se lembra dos insones deste mundo. Onde está o voluntariado para fazer companhia a quem, como o George, se levanta cinco vezes por noite? A Associação Insone Amigo? Gente capaz de ir a casa de gente apijamada que está de olhos abertos quando o resto do prédio sonha que isto da Troika já passou e que voltámos a poder ver as entrevistas do Daniel Oliveira sem ter a palavra "austeridade" a passar no rodapé mental.  Se calhar o insone só precisa de alguém que lhe passe a mão pela cabeça e diga:"Vá, meu pequenino, toca a dormir". E "dãobalalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração". Se calhar é só isso. Não custa nada.

publicado por Nuno Costa Santos às 19:34
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