Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Um melómano confessa-se

melomania

s. f.

Paixão pela música.

 

Segundo a Wikipedia "Melomania é o termo usado para descrever uma paixão exagerada pela música, por vezes atingindo foros de mania. Apesar deste significado, o termo é frequentemente usado de forma elogiosa para descrever um grande apego à música. Neste sentido, Melómano é considerado como sendo um indivíduo amante e conhecedor de música, intérpretes e estilos musicais."

 

Prefiro, contudo, a definição simples do Dicionário Priberam da Língua Portguesa. Para se ser, hoje, um indivíduo amante e conhecedor de música, intérpretes e estilos musicais basta ter uma ligação à internet. A paixão pela música pressupõe uma cultura, um enraizamento quase sublime que advém da fruição da música. O Melómano não é, apenas, aquele que tem um conhecimento enciclopédico mas, sim, aquele que reconhece uma banda sonora da sua vida a cada segundo, a cada passo. Talvez por isso, a novidade é um conceito abstracto para a sua paixão.

 

Não se entende, assim, a novidade pela sua natureza cronológica. Ela está na descoberta de novas dinâmicas da própria vida. Para o Melómano, a novidade é algo sem tempo. Há sempre nos Beatles, nos Massive Attack ou em Chopin uma harmonia que nos escapou. Há sempre uma palavra de Casablancas, de Vinicius ou de Brel que ouvimos dita de um modo absolutamente novo. E todos os dias nos espantamos com esse conjunto de novidades, tornando a obra imortal. A morte física do autor nunca matará a novidade da obra.

 

Por outro lado, nem toda a música contemporânea é, necessariamente, nova. O espectro de influências que define todos os artistas pode ser tão evidente e aborrecido que faz de um tema de 2012 um pano velho. Isto para não dizer o óbvio: nem toda a novidade é boa, por definição.

 

Neste sentido, um DJ não tem de ser um melómano, porque a sua principal preocupação é encontrar sonoridades contemporâneas que não aborreçam o seu público, nas rádios e nas discotecas. Se o Melómano, por sua vez, quiser ser, também, um divulgador, a sua missão já é outra: promover o factor cultural que alimenta a sua paixão e contribuir para o enriquecimento dos outros. Por outras palavras, acrescentar valor.

 

Resta-me dizer que o trabalho criativo de um músico só pode ser novo se for genuíno. Ao obedecer a uma espécie de ditadura da novidade, a sua concentração estará dirigida para um campo exterior, facto este que o limitará. Talvez possamos, mesmo, afirmar que é aqui que está uma das distinções entre arte e entretenimento. Ou talvez tudo isto não passe de uma mera desculpa para sacar gajas.

publicado por jorge c. às 00:04
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