Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Vá lá, Passos

Vamos por partes. Primeiro o "piegas". Há muito que não se assistia a uma declaração tão utópica na vida pública portuguesa, possivelmente mais utópica do que os discursos de Vasco Gonçalves nos idos anos 70. Pedir aos portugueses para não serem piegas é como pedir à Senhora Dona Merkel para ser uma sentimental. À Cátia da Casa dos Segredos para ser uma literata. Ao Cristiano Ronaldo para ser humilde. Não cola. Não dá. É delírio. O óbvio, sim, o óbvio: a pieguice é aquilo que caracteriza uma boa parte da Nação, mesmo que estejamos cada vez mais diversos e variados. Exageramos no sentimento, somos fiteiros por natureza, choramos por ninharias, berramos emocionadamente por coisas sem importância. Demoramos horas a despedirmo-nos de quem vamos ver no dia a seguir. Sabemos todos disso.

 

Depois a exigência. Foi pedido aos portugueses para serem mais exigentes. Aí, senhoras e senhores, meninos e meninas, jogadores da bola e leitores de Georg Trakl, penso que há margem de manobra. Sim,  também eu quero a minha - permitam-me o palavrão - comunidade mais exigente consigo. Mais solidária. Mais compassiva. Mais atenta aos velhos abandonados. Mais capaz de ajudar quem não se consegue ajudar. De manga mais arregaçada para contribuir. Mais disciplinada (vá, um nadinha).  Mais exigente consigo para depois poder ser mais exigente com os outros, inclusive o Governo da Nação, que, sabemo-lo, tem falhado nalgumas exigências importantes (em relação a nomeações, ordenados e deslumbres com capitais e mercados). Sou dos que acham que as pessoas, sobretudo aquelas que atravessam nebulosas e dificuldades, precisam de uma palavra, sim. Mas não de uma palavra de professora primária com a régua na mão a falar aos meninos mal comportados. Em vez disso, precisamos de uma primeira palavra piegas do primeiro ministro, até aqui demasiado metálico na postura. Que peça exigência e esforços e uma nova atitude mas demonstre ao mesmo tempo proximidade e empatia com quem habita a vida de todos os dias e não tem espaço na lancheira para ideologias. Qualquer gesto de aproximação por parte de Passos Coelho será um gesto piegas, mundano, convivial, nosso. Vá lá, Passos, o país precisa do teu lado Massamá.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 13:47
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1 comentário:
De Tó Zé a 12 de Fevereiro de 2012 às 19:13
Tenho de confessar que o primeiro ministro esticou a corda. Se é pieguiçe reformados com pensões mais baixas do que o salário mínimo, que por si só já não vale nada, não conseguirem viver e queixarem-se, então o PM tem o atestado de incompetência passado por mim.
O grave problema é que ele tem razão em certas situações, o país está mal e todos temos de fazer sacrifícios, com todos incluo o PR que em vez de ganhar 10000€ podia ganhar apenas o seu ordenado, sem as reformas. O estado podia poupar em carros pessoais para os ministros, andavam de autocarro como no norte da Europa, se os ataquassem, pensem, quem não deve, não teme.
Mas, por acaso, penso que o PM não é desonesto, na verdade, penso que ele está a tentar salvar a nação do abismo e de inicio conseguio, o problema é o CDS, Passos não tem de lidar com uma democracia imperfeita, tem de lidar com uma corruptia perfeita, ele pode não ser corrupto, mas toda a máquina política do PSD e do CDS-PP o é. Se ele quer ser realmente o salvador da pátria, vai ter de lutar contra o seu próprio partido e provavelmente vai ter o mesmo destino de Sá Carneiro, mas juro, se ele tentar levantar o país e lutar contra a corrupção e o matarem, estarei presente no funeral dele, por ser o primeiro PM honesto desde que saiu o governo provisório.
Por agora, penso que ele se está a comportar como o Salazar, cortes cegos em todos os setores do estado na esperança de acabar com a despesa e com a dívida.

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