Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Ora pois, bigodes femininos e outro lugares comuns

Não foi a primeira vez nem será a última que ser português no Brasil provoca reacções como “Ora pois, pá”, “Então e a terrinha?” ou apenas as piadas de sempre sobre as limitações do raciocínio lusitano. Sou paciente e compreensivo. Mas ontem, numa mesa da Academia da Cachaça, um publicitário brasileiro começou a conversa comigo dizendo: “Estive em Lisboa, não gostei muito.” Não sendo representante do Turismo de Portugal, tentei defender a minha cidade sabendo, como sei há muito, que todos temos as nossas razões e que cada um come do que gosta. Seguiu-se mais uma queixa: “Trabalhei com um português, ele era um pouco…”, e fez o gesto de meter as mãos junto da cabeça, perto do olhos (as palas dos burros?), e desenhou um caminho a direito, como quem diz, “incapaz de sair fora de um pensamento linear.” Também falou da falta de sentido de humor dos portugueses. Considerei a possibilidade de, em seguida, ouvir que a minha namorada tinha bigode e o meu pai era padeiro.

 

Depois de viver em vários países – melhor dizer cidades – percebi que há uma permanente comparação entre o lugar de onde vimos e o lugar onde estamos, uma espécie de confronto, de conflito, que também experimentamos, de maneira mais suave, num fim-de-semana prolongado em alguma capital estrangeira: “Isto é o Chiado cá do sítio”, “Estes gajos conduzem muito pior que nós”, “Em Portugal não há disto.” Talvez seja insegurança, talvez seja falta de pé, mas por mais viajado que seja um ser humano, desconfio que, em algum momento, vai ceder ao impulso das comparações, das generalizações e dos lugares comuns.

 

Eu já o fiz, claro, e ontem, diante daquele publicitário, o meu esforço para não ser essa pessoa foi inconsequente. Tentei perceber quão profundo era o conhecimento do meu interlocutor sobre Lisboa – nitidamente inferior ao meu conhecimento do Rio de Janeiro. Talvez essa bazófia tenha feito de mim pior pessoa e um companheiro de conversa menos interessante. Mas eu, tantas vezes crítico do meu país – dentro e fora de fronteiras – senti o meu pundonor lusitano manchado. Talvez isto me sirva de atenuante: o meu despeito não era tanto o espumar da boca de um skin head, o nacionalismo primário de achar que somos bons porque sim, era antes um desejo de verdade e uma hipótese de destruir todas as ideias feitas do meu interlocutor. Que se faça justiça.   

 

Disse-lhe que os portugueses podiam ser mais fechados que os brasileiros, menos abertos à mudança e à novidade, mas que não podiam ser acusados de falta de criatividade ou sentido de humor. Como pode ser linear e pouco criativo um povo que inventou instrumentos e técnicas de navegação marítima, que produziu poetas com múltiplas personalidades e que aplica amiúde a palavra “desenrascar”, vocábulo original e desconhecido em terras de Vera Cruz, ainda que aqui se tenha herdado um certo jeitinho para o desenrascanço.

 

Sobre o humor português, disse-lhe, mais altivo do que gostaria: “Então e Eça de Queirós?”

 

Ele insistiu, contando uma história que julgo ter ouvido antes na boca de outro brasileiro – por vezes torna-se difícil perceber o que é um episódio real e o que é uma piada que entrou no leque de histórias tidas como verdadeiras. Disse-me que um amigo brasileiro perguntara num restaurante, numa aldeia de Portugal, se fechavam ao domingo. O dono disse que não. Claro que o brasileiro foi lá no domingo e o restaurante estava fechado. Voltou dias mais tarde para descodificar o mal-entendido e perguntou: “O senhor disse que não fechava.”

E o português, supostamente de palas nos olhos, pisando a linha a direito, incapaz de pôr o cérebro a carburar fora da caixa, respondeu:

“Se ao domingo nem sequer abrimos como é que vamos fechar?”

 

O que eu não disse na altura – porque só me lembrei agora –, é que o episódio só favorece o português. A sua resposta não foi resultado de um pensamento rigidamente linear. Era mais: “Os brasucas andam a fazer piadas com a maneira como interpretamos as coisas? Então eu já trato disso." E quando o brasileiro lhe perguntou se fechavam ao domingo, ele pensou, “É já este. Vens cá bater com o lombo no domingo que até arrotas a presunto. E quando cá chegares ainda te presenteio como um belo e irrefutável exercício de lógica: Se ao domingo nem sequer abrimos como é que vamos fechar?”

 

The joke is on you, duderino.

 

O que eu, de facto, disse ontem à noite: que era injusto caracterizar todo um povo com base numa história como aquelas. Se assim fosse, os brasileiros seriam como a garçonete que bloqueou a moleirinha quando ouviu as palavras “vodka tónica”.

 

“Oi?”

 

“Vodka e água tônica” - mudei a fonética do “o” para sotaque brasuca, não fosse esse o motivo da interrogação.”

 

“Tem não.”

 

“Mas eu estou a ver ali uma garrafa no bar. Vodka tem” – o cardápio do restaurante oferecia uma longa lista de bebidas com vodka. “Não tem tônica, é isso?”

 

“Tem tônica, sim.”

 

Depois de mais alguns momentos de incompreensão mútua, a empregada foi lá dentro e regressou com um copo com gelo, um copo com vodka, um copo vazio e uma lata de água tónica.

 

Na semana seguinte aconteceu exactamente a mesma coisa, embora com outra garçonete.

 

É fácil generalizar a partir de episódios como este. E da mesma maneira que hoje recuso as generalizações sobre portugueses no Rio, muitas vezes em Lisboa iniciei discussões após ouvir as habituais queixas sobre os brasileiros: são todos bandidos, putas, vão-te enganar, não são teus amigos verdadeiros, é tudo superficial.”

 

Sim, é verdade que tento ser o cavaleiro da justiça entre povos, mas também é verdade que não sou ainda o homem, livre do jugo do orgulho, que gostaria de ser.

 

Reconheço agora que a história da vodka tónica foi uma pequena vingança contra o meu interlocutor e tudo o que desgosto no Rio. Confesso agora que, por mais que tente relativizar as diferenças entre países e culturas, por mais que recuse as generalizações, também eu sou vítima desse campeonato, mais ainda quando alguém começa a conversa comigo (acabáramos de ser apresentados), dizendo que os portugueses não eram a faca mais afiada do faqueiro – mais ou menos como receber alguém em casa pela primeira vez e dizer de entrada: a sua mãe é lerda da cuca e um bocado perra de ideias.

 

Tudo piorou quando ele disse: “Você pode passar trinta anos em Lisboa e nunca ser lisboeta, mas você mergulha nas águas de Ipanema e passa a ser carioca.”

 

Fosse isto uma série cómica e teria soado a buzina da resposta errada. Se há cidade que converte estrangeiros em seus, é Lisboa. E ainda que o jeito de ser carioca seja muito apelativo e fácil de aceitar, também tem um lado obscuro de desleixo, laxismo, uma desatenção pelo espaço urbano e pelo outro, um lado que não seduz de imediato todos os gringos que caem nas águas de Ipanema.  

 

Ontem, aconteceu comigo o que aconteceu, há dez anos, em Nova Iorque. Nessa noite, tinha um interlocutor americano crítico feroz de Portugal – muito mais feroz que o publicitário brasileiro. Durante a discussão, apontei o dedo a algumas coisas que me desagradavam nos Estados Unidos – estávamos na era Bush filho. O senhor perdeu as estribeiras. Como podia um estrangeiro criticar a nação que o recebera. Escusado será alongarmo-nos aqui sobre questões de liberdade de expressão num país que tem a liberdade de expressão entre os fundamentos da sua nacionalidade, que ainda faz bandeira disso, e que foi levantado do chão por emigrantes.

 

O que me interessou nessa noite em Nova Iorque foi erguer, por fim, a guarda e contra atacar, seguro que a minha capacidade crítica e de intervenção não tem nacionalidade nem poderá ter fronteiras.

 

Quando chegamos a um país estrangeiro, há um período de latência, uma certa vergonha, a incapacidade de falarmos de igual para igual. Não sabemos como funcionam as coisas, não temos a informação suficiente, mais ou menos como quando estamos diante de um médico ou de um técnico informático. Mas chega um momento – aquela noite em Nova Iorque, a noite de ontem no Rio – em que saímos das cordas, qual Muhammad Ali no Zaire, e percebemos que temos o direito e a obrigação de dizer “Alto e pára o baile”.

 

Sempre que me mudei para outra cidade foi por amor (e tesão) por essa mesma cidade. Nunca isso foi impedimento para ver o que estava errado e o que gostaria que fosse diferente. Nesse combate já caí, como ontem, na disputa mesquinha, nas comparações desnecessárias, nos ataques fundamentados em clichés e generalizações.

 

Mas ontem trataram Lisboa com desdém, e ainda que aceite tranquilamente que nem todos se enamorem da cidade, é melhor que mostrem um pouco de respeito. É que eu posso ser parte menino da Linha, parte nova-iorquino, parte madrileno, parte carioca ou mouro ou até de Ayamonte. Mas a parte no meio – o dentro mais dentro – sei-o agora, como nunca soube antes, é de Lisboa.

 

A guarda está outra vez em cima. Come out and let’s dance ou, por outras palavras, vai uma cabeça à Caixodré?

 

 

publicado por Hugo Gonçalves às 13:22
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