Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Um homem corajoso

Assumo tudo. Confesso. É tudo verdade. Tenho andado a mentir em relação à minha própria definição. Sou esteticamente conservador, intuitivamente libertário e tradicionalmente cobarde. Não um conservador tout court. E é a cobardia que melhor reflecte cada um dos meus gestos. Mas, estou certo que o leitor não está aqui para assistir a lamúrias e auto-retratos de um c. qualquer. Não é da minha cobardia que pretendo falar mas, antes, da coragem dos outros.

 

Por motivos que só Deus pode conhecer, tive de me reunir com um homem, por estes dias, a fim de acordarmos num negócio que traria benefícios à minha parte e que pouco, ou nada, lhe interessaria. Isto estaria, à partida, condenado ao fracasso. Porém, em apenas cinco minutos, o homem apresentou-me todos os benefícios sem que eu lhe pedisse nada. Pensei: sou um génio! E ali estava eu, deslumbrado, a contemplar a minha magnitude negocial. O homem despachou o assunto num abrir e fechar de olhos. É muito comum encontrarmos, hoje, executivos mais pragmáticos e objectivos. Mas, com aquela rapidez toda, nunca tinha visto.

 

Não demorou muito até perceber a razão para tanta celeridade. Este homem aproveitou a oportunidade para conseguir uma vantagem (legítima, absolutamente legítima) a partir de uma certa circunstância, externa a este negócio. A sua pretensão foi apresentada com uma naturalidade tal, que julguei que estivéssemos, ainda, a negociar contrapartidas. A eficácia com que o meu interlocutor saiu de um negócio para o outro foi tão extraordinária que nem me me deu tempo de adoptar uma postura apropriada, entre a reflexão e a desconfiança. Tudo isto foi feito com uma segurança invejável. Alguém que consegue ser tão assertivo tem de ser, ao mesmo tempo, corajoso.

 

Admito que é a coragem que nos conduz ao sucesso. Porém, não encontro na atitude deste homem um pingo de coragem. Encontro - isso sim - um total descaramento. A coragem e o descaramento não se encontram no mesmo patamar, já que este nasce para ser inconsequente e a primeira nasce para a transcendência. O homem corajoso é aquele que  enfrenta a adversidade por uma convicção. O homem descarado aproveita-se de um espaço mudo. A minha cobardia, afinal, não é assim tão grave. Talvez reste, ainda, dentro de mim, a coragem suficiente para viver com dignidade. Talvez a minha missão seja negar o descaramento.

publicado por jorge c. às 11:34
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