Sábado, 14 de Janeiro de 2012

algumas palavras que marcaram o ano

Deem-me mais umas quantas palavrinhas e eu despeço-me já do ano passado. Já está na altura de começar a aproveitar os novos dias, eu sei. Mas não queria deixar que os precedentes se fossem embora sem recordar uma das suas figuras. Não sei se será a personalidade do ano, se calhar porque uma homenagem deste tipo merece ser partilhada por tantos.


Tariq Jahan. Era dele que queria falar. Tariq Jahan, 46 anos, filho de imigrantes indianos e paquistaneses já nascido no Reino Unido. É o pai de um de três homens que morreram durante os motins de agosto, atropelados enquanto protegiam as lojas do seu bairro de Birmingham. Ficou conhecido pelo seu discurso à comunidade muçulmana em que apelou à calma e rejeitou o recurso à violência, logo no dia subsequente à morte do seu filho. As suas palavras pediam união entre as várias comunidades e evitavam a vingança. “I lost my son. Blacks, asians, whites – we all live in the same community. Why do we have to kill one another? Why are we doing this?” No barril de pólvora que é a segunda maior cidade britânica, ainda a cicatrizar das lutas entre as comunidades asiática e afro-caribenha em 2005, acredita-se que os seus apelos tenham sido decisivos para impedir confrontos raciais.


As mesmas palavras repetidas por um político ou um responsável da polícia não teriam tido sido ouvidas. Naqueles dias de enorme tensão, o discurso tão simples quanto inspirado, sobretudo corajoso, de alguém sem qualquer experiência como orador conseguiu pacificar uma multidão.


Marcou-me este momento de grande dignidade. O facto de Tariq Jahan ter conseguido manter-se lúcido e encontrar tanta paz interior num momento tão doloroso, em que os nossos instintos básicos anseiam por vingança, procuram por responsáveis. A força que é necessária numa altura destas para procurar a via mais sensata.


Estranhamente, lembrei-me dele por razões menos positivas, ao ouvir na BBC que tinha sido acusado de agressão numa discussão rodoviária, meses antes dos motins. Sim, Tariq Jahan não é um santo. Terá muitas facetas para além do herói, é imperfeito e não se resume à pessoa que discursou inspiradamente para toda uma comunidade. Mas conseguiu ser uma voz positiva, numa altura em que as imagens apenas transmitiam violência, pilhagens e incêndios.

 

 

 

(neste texto já me esforcei por escrever ao abrigo do novo acordo ortográfico)

publicado por Ricardo Correia às 23:38
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