Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

Sol de Inverno

Chamaram-lhe a idade da inocência. Acredito que o epíteto foi dado a uma geração muito específica, nascida no pós-guerra, crescida ao som do ié-ié da Madalena Iglésias e na melancolia da uma eterna Primavera. Longe da urbanizada e progressiva consciência política, uma juventude paternalizada, que delirava com a fatiota da Mocidade, sem querer, viveu um sonho; um sonho de bondade, generosidade, justiça, solidariedade e ternura. Lembro-me como a minha mãe se emocionava a cantar o Meu Primeiro Amor. Os seus olhos verdes enchiam-se de uma nostalgia lacrimosa e a voz tremia-lhe sempre que dizia "Ai quem me dera ter outra vez vinte anos". Depois olhava para o céu, já sem esperança mas, com fé e sem ressentimento. Nunca compreendi. Que tempo foi esse?

 

Às vezes, quando se encontra com pessoas da mesma geração, mesmo que desconhecidas, sinto nelas uma cumplicidade pouco habitual, quase como se viajassem no tempo, num instante, e se encontrassem numa dimensão especial, só deles, onde estamos impedidos de entrar por incapacidade onírica. Sinto uma profunda inveja desse momento da convergência das bondades, talvez só possível por ter existido naquele lugar estranho que foi o nosso país há 50 anos. Só possível porque uma geração ingénua, com um olhar doce e vestida com a mais profunda das bonomias aspirou a um mundo de amor.

 

Na geração dos meus pais estão algumas das pessoas que mais admirei na vida. Apesar do seu paternalismo crónico adquirido, sempre me deslumbrou aquela ternura que lhe é tão característica, as cantorias colectivas, o sorriso sincero e a honestidade. Quando eu for grande vou ser assim, prometi-me a mim mesmo. Mas, talvez por ter crescido numa época demasiado cínica, não me sinto numa geração cúmplice com a sua própria bondade, que se olhe dessa forma, que se reconheça. Ela existe, está lá e é igualmente generosa. Mas, não se reconhece.

 

Manuel António Pina, em entrevista à Ler deste mês, fala da prevalência da bondade sobre a própria poesia - a mais bela sugestão dos últimos tempos. Andamos a reivindicar esta necessidade há já algum tempo. A ONU estabelece o combate à pobreza como o mais relevante da Humanidade. Temos o ano do voluntariado e do envelhecimento. Porém, por mais determinação que exista, julgo que o problema está na incapacidade de compreender a natureza da bondade. É um factor emocional. Está, então, na altura de nos devolverem a inocência sem que seja preciso uma ditadura para a restaurar, como um sol num inverno ameno.

publicado por jorge c. às 11:38
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3 comentários:
De golimix a 14 de Janeiro de 2012 às 10:30
Oxalá não cheguemos à ditadura, como diz, espero que essa consciência, esse sol que precisamos, e até ansiamos, muitos sem o saberem, surja sem que precisemos de pagar um tão elevado preço.
LMaria
De Joana Lopes a 14 de Janeiro de 2012 às 10:53
Gosto muito do teu texto, Jorge, mas tens uma imagem muito idílica desses tempos...
De jorge c. a 16 de Janeiro de 2012 às 12:08
Minha querida Joana,

Muito obrigado. E é verdade, é uma imagem extremamente idílica. E eu digo: ainda bem. É nas imagens mais idílicas que me prefiro inspirar.

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