Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Este ano o Natal é lá em casa

Este ano o Natal é lá em casa. A casa dos meus pais, claro está. Aquela em que eu vivo é a nossa casa, a minha, da minha mulher e dos meus filhos. Quando eu era apenas filho também ia a casa pelo Natal, à do meu pai ou da minha mãe, onde viviam os meus avós.

O meu Natal é o regresso ao ninho. Onde me fiz homem, onde aprendi tudo o que de facto interessa. Pouco importa se a casa não é a mesma onde nasci e cresci. A casa é um local muito para além das salas, dos quartos, da rua, ou da cidade onde se encontra. É onde estão os meus, os meus eternos gurus, os meus heróis, aqueles a que eu pertenço e que me pertencem: os meus pais.

Juntamo-nos muitas vezes durante o ano, mas a noite de consoada é especial. Não porque a esmagadora maioria da minha família seja particularmente devota, não por causa da gritaria da rapaziada excitada com os embrulhos e as prendas que os entusiasmará por pouco mais de dez minutos, não pelas rabanadas, mexidos, aletria, ou mesmo pelo sagradíssimo bacalhau.

Dentro da euforia, das canções que permanentemente berramos, dos excessos etílicos, das histórias de sempre que repetimos para nos sentirmos mais seguros ou mais próximos, das eternas discussões acaloradas que acabam sempre com um berro do meu pai, dos comentários jocosos aos alfacinhas que trouxemos para a família e ao seu pouco civilizado hábito de comer o infame e seco peru, há sempre uma melancolia mais ou menos disfarçada.

Passei anos e anos sem entender o porquê dos olhos brilhantes do meu pai ou das lágrimas fugidias na minha mãe. Dos momentos de silêncio disfarçados com mais uma garfada na couve galega. Causavam-me estranheza aqueles instantes de tristeza profunda como se lhes faltasse um pedaço de alma, como se viajassem para um lugar longínquo. Não estão eles ao pé de quem mais amam? Claro que sim. Mas eles também tiveram um ninho, o tal espaço só deles e dos outros seus. Naqueles brevíssimos pedacinhos viajam para casa, para os que perderam, para os que estão noutras terras, para os que amaram e para os que continuam a amar. A minha angústia, a melancolia que também sinto vem de não lhes poder preencher esse espaço. Não posso, mas tenho todo o meu coração para lhes dar.

Bom Natal, mãe, Bom Natal, pai.

 

(crónica para a revista Life publicada em Dezembro do ano passado)

publicado por Pedro Marques Lopes às 00:47
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1 comentário:
De Exilado no Mundo a 10 de Janeiro de 2012 às 10:55
Têm um Madeira? :)
http://exiladonomundo.blogspot.com/2011/12/o-jantar-de-natal-com-o-madeira.html

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