Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

os clássicos

Guardo pela música erudita a mesma distância respeitosa que mantenho com todas as coisas que não compreendo. Nunca fomos devidamente apresentados, de modo que não me aproximo muito. Constrangido pela diplomacia tácita que se presume entre estranhos, há anos que me mantenho caladinho sobre um assunto, mas, depois de há dias me ter passado pela mão o enésimo programa da Gulbenkian, decidi que era de mais. Há muito ano que me cruzo com folhetos e programas eruditos e é sempre a mesma cantiga. Não. Chega. Um dia, um homem rebenta. Cá vai: há ali uma coisinha sórdida de pensão barata, não há? Umas cabeleiras de revista Gina, umas maquilhagens de telefilme erótico dos eighties, uma provocaçãozinha soft porn, não é?

 

Nada como experimentar, caro leitor. É folhear o próximo folheto gulbenkian/casadamúsica/óperadesãocarlos que venha com o jornal. Ou topar os anúncios nos suplementos culturais. Ou fazer uma breve incursão pelas capas dos discos na secção de música clássica da discoteca das redondezas. Está lá tudo. Chapadinho. Tirado a papel químico. Sim, porque, aparentemente, há um mesmo senhor que faz todo o marketing de toda a música erudita vai para século e meio. É tudo igual. Foto dos artistas, artistas vestidos para um casamento, elas de grandes vestidos de noite e decotes transbordantes, eles como se já tivessem nascido de smoking, elas de cabelo armado, eles penteadinhos como na primeira comunhão, ambos maquilhados para lá dos limites legais, a olharem para a câmara e a sorrirem, a sorrirem muito, aquele sorriso de anúncio mon chéri, ou do genérico do “Barco Do Amor”, quando os actores se voltavam para a câmara e pareciam surpreendidos com o facto de estar alguém a filmar. Às vezes, um maluco ou outro surge de mãos nos bolsos e laço desfeito, primeiro botão da camisa aberto, mas sempre a sorrir, o estupor, com ar negligé, como se alguém cuja vida é tocar Brahms desde os três anos de idade pudesse ser negligé.

 

Não dá. Não se acredita. Não haverá nem uma ideiazinha melhor? Um conceito, uma metáfora, uma subversão? Faz lembrar aquelas pastelarias que têm fotografias dos pratos, não vá uma pessoa não saber o que é um bitoque. Um tipo compra um disco do concerto para piano nº 2 do Rachmaninoff e, quem diria?, a capa tem um tipo apoiado num piano, de smoking, penteadinho e a sorrir como um figurante dum anúncio de dentrífico que faz maravilhas pela placa bacteriana.

 

Chega. Acabou-se. Ou bem que actualizam essa comunicação ou assumem, duma vez por todas, ao que vêm. A prima donna esborracha o pianista e a orquestra vira para a orgia.

publicado por Alexandre Borges às 02:27
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5 comentários:
De Vasco M. Barreto a 12 de Janeiro de 2012 às 11:23
Olá,

"É tudo igual"? Talvez, como os asiáticos nos parecem mais iguais do que os caucasianos, só porque não os conhecemos tão bem. Mas seria possível fazer o mesmo exercício com - sei lá - bandas de "rock alternativo", todos urban outfitters ", todos com a mesma postura de corpo, todos iguais. São códigos e a música erudita também tem os seus. Mas reconheço que há uma diferença. A diferença é que a verdadeira "subversão" no caso da música erudita acontece na forma de música - uma interpretação original - e não na forma de trapos ou posturas. Todos os músicos eruditos com a "subversão" que reclamas - e há alguns - são geralmente uns palhaços ou gente com jeito para o negócio.
De Alexandre Borges a 12 de Janeiro de 2012 às 11:39
Caro Vasco, não concordo nada. Gostos à parte, se há coisa em que a pop é especialista é em comunicação. Mesmo no caso da "pose dos alternativos", de Nick Cave a Antony, para não ir mais longe, parece-me haver muito que se lhe diga. A erudita, pelo menos em Portugal, claramente não se dá ao trabalho. É preguiçosa. A propaganda dela, tal como está, não estranharia à porta dum cabeleireiro. Abraço.
De Vasco M. Barreto a 12 de Janeiro de 2012 às 12:31
Alexandre, eu só sugeri que a homogeneidade que descobriste nos músicos eruditos traduz a tua maior proximidade com outras formas de música, mas logo a seguir concordei com a ideia de que a pop comunica melhor (no sentido de chegar a mais gente). Apenas friso que essa forma de comunicação na pop é completamente exterior à música, são os trapos, a postura, as opiniões dos artistas e não a harmonia. É natural que assim seja, porque a sofreguidão com que se procura novidade e diversidade na pop só poderia ser servida em forma de música se a cultura musical da população fosse melhor e se a pop fosse musicalmente mais complexa. Mas, por definição, a pop é musicalmente simples. Repara que não estou a dizer que a pop é simples. Aliás, como manifestação cultural tem mais dimensões do que a música erudita - isto explica a figura do crítico musical de pop que faz uma perninha na crítica de livros, porque a sua técnica não é musical nem literária, é uma técnica de "crítico cultural". Para este crítico, o universo da música erudita é pouco interessante, porque a música erudita privilegia sobretudo a música, apesar de todos os outros códigos. Para este crítico, o smoking aborrece, porque não muda, não capta o momento, etc., mas para o apreciador de música erudita é uma excelente ideia, porque não o distrai do essencial - e isto não é conservadorismo, na música erudita o conservadorismo é quando os programas repetem os standards "clássicos" do costume. Para resumir, dizer que o dodecafonismo foi infinitamente mais subversivo do que o rock não é nada subversivo.
De Vasco M. Barreto a 12 de Janeiro de 2012 às 13:01
"Casaca" e não "smoking", creio.
De Alexandre Borges a 12 de Janeiro de 2012 às 23:46
Ok. Insisto que lhe falta o embrulho, mas compreendo perfeitamente o teu argumento. E, sem dúvida que se, fosse mais conhecedor, também seria mais sensível às diferenças. Nota só que, em momento algum, quis comparar as coisas do ponto de vista musical - Deus me livre. Abraço.

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