Sábado, 7 de Janeiro de 2012

uma simples história de início de ano

Mesmo os mais cínicos não terão conseguido suprimir uma ou outra resolução. Pode mesmo ter sido uma muito pequena. Dar o lugar aos idosos no autocarro, por exemplo. Ou deixar de roer as unhas. Não conseguimos escapar às últimas semanas do ano, que nos pedem análises aprofundadas, e ao novo ano que se anuncia fresco e sorridente a todas as oportunidades de recomeçar a vida. Os ginásios aproveitam, as montras das livrarias enchem-se de guias de autoajuda. Consiga finalmente o emprego da sua vida. Deixe de fumar sem engordar. Perca peso sem deixar de fumar. Mude a sua vida em sete dias (o que faremos durante os restantes?).

 

Queremos – a maioria de nós – ser boas pessoas. Eu quero e gosto de aproveitar este período de digestão natalícia para umas quantas reflexões, inconclusivas se calhar. Um dos primeiros passeios para clarificar ideias colocou-me desde logo à prova: a tarde já tinha escurecido, na Londres invernal a tarde está quase sempre escura, e chovia muito, estupidamente muito, quando a chuva londrina costuma ser simpática e discreta. Junto à paragem na minha rua, um miúdo estava deitado no chão, ao lado uma rapariga com olhar perdido. Tal como as pessoas à minha frente, olhei, hesitei, mas continuei.

 

Quantas vezes vimos cenas semelhantes e prosseguimos? Muitas vezes por estarmos absortos nos nossos problemas ou atrasados para um encontro, uma reunião. Ou por não sabermos como ajudar. Considerando a forte ligação de alguma cultura inglesa às bebidas alcoólicas, habituamo-nos a ver cenas parecidas no final de noites de festa.

 

Se calhar por isso prossegui caminho. Mas acabei por voltar. Porque tinha tempo. Ou porque era o início do ano, não sei. Deitado no chão molhado, o miúdo repetia que queria ficar ali a dormir. A namorada tinha dificuldades em falar e em dizer para onde queriam ir. Ele balbuciava que nunca mais iria beber na vida - também ele tinha feito as suas resoluções. Estavam os dois com medo de voltar para casa. Numa imagem, toda a vulnerabilidade de dois miúdos de 14 anos, há umas horas tão durões nos seus fatos de treino. Com a ajuda de um vizinho e muita paciência, optamos por levá-los a casa do pai dele, parece que seria o único capaz de entender a situação. Encharcados, iniciámos a nossa marcha insegura até ao bairro vizinho de Islington.

 

Acho que a história tem um final feliz, depois de percorrermos os corredores infindáveis de um bairro social e entregarmos o rapaz ao pai e ajudarmos a rapariga a encontrar a sua paragem de autocarro. Com mais engenho até se poderia converter numa história de Natal. Assim, apresenta-se apenas como uma simples história de início de ano, numa época em que estes gestos conseguem adquirir mais importância.

publicado por Ricardo Correia às 12:38
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