Domingo, 8 de Janeiro de 2012

O Rei Peão

Parece que existe um cidadão finlandês que vive na China e dedica os seus dias a ensinar os condutores locais a respeitarem as passadeiras para peões. Num país onde os atropelos são de natureza vária e quase banais, isto requer coragem. O modus operandi do cavalheiro é simples: mal vê pessoas que esperam uma nesga de tempo para atravessar a rua, salta para cima da passadeira e coloca-se temerariamente em frente dos estupefactos condutores, que não viam uma coisa assim desde que um rapaz com um saco de plástico parou um tanque numa praça grande.

 

Este acto pedagógico e tresloucado dá que pensar, sobretudo agora em que ainda se vive na ressaca das «operações Natal» e «Ano Novo», onde as fatalidades nas nossas estradas são sempre tão trágicas como estúpidas. Apesar dos esforços de fiscalização ou de acções eficazes e criativas de educação dos condutores, como o faz a excelente ACA-M, tudo parece ser inútil. Mas a questão é esta: será que é tudo culpa de quem vai ao volante?

 

Não me parece. O peão nacional precisa de ir para a escola ou mesmo ser castigado. Digo-o com a consciência de que este discurso pode soar um pouco a Dr.Jekkil e Mr.Hyde, já que conduzo e também sou peão. Mas um rápido passeio pelas ruas de uma cidade (Lisboa, vá lá) chegará para perceber que o perigo também anda a pé. Num exercício simples – um trajecto de 25 minutos em que passei pelas zonas centrais da capital – consegui estabelecer algumas tipologias pedonais. Partilho-as agora com o planeta, certamente ansioso por conhecê-las.

 

1)      Os idosos kamikazes. Este é um grupo bastante comum. Reúnem-se em semáforos em que o sinal está vermelho para as viaturas e esperam pacientemente que o sinal mude para verde. Nessa altura, possuídos por um desvairado death wish, avançam muuuuuito leeeentaaaameeeente, entre o surpreso e o indignado. Os mais delirantes chegam a insultar os condutores, apontando para o sinal que exibe um vermelho para os peões.

 

2)      Os vanguardistas. Grupo de peões intelectuais que, desafiando séculos de ciência matemática, insistem em provar que a distância mais curta entre dois pontos é uma diagonal. Encontram-se sobretudo em grandes avenidas, onde tentam provar a sua teoria o mais longe possível de passadeiras e sinais.

 

 3)      Os legalistas. O humorista húngaro George Mikes dizia que os ingleses atravessavam a passadeira para peões como se transportassem a Magna Carta. Em Portugal, os peões legalistas atravessam ufanamente em qualquer lado como se isso fosse o seu direito constitucional.

 

4)      Os passeiofóbicos. Pertencem ao grupo dos que vendo um passeio completamente desafogado e livre de carros (o que vem a ser raro) preferem continuar o seu percurso pela estrada, de costas para o trânsito e em conversa amigável. Suspeita-se que alguns sofrem da ilusão de que fazem também parte do tráfego automóvel.

 

Há mais? Há, mas estou cansado. Descubra-os o leitor e sugira aqui na caixa de comentários. Eu tenho de me ir embora e circular com cuidado, não vá um pedestre abalroar-me a viatura.

 

 

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 11:00
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2 comentários:
De Teresa a 8 de Janeiro de 2012 às 14:21
Em Cracóvia fiquei muito surpreendida com o ar paciente/obediente com que os peões esperavam a abertura do sinal nas passadeiras (e eram aos magotes, que há muito mais peões que carros, e se o raio dos sinais demoravam a abrir!).
A explicação? Por um lado, resquícios do regime comunista, faz-se o que nos mandam e mais nada. Por outro lado, os peões podem pagar multa se passarem um sinal encarnado, e não é nada meiga. Tanto quanto me lembro, 250 zlotys, ao câmbio de há três anos coisa de 63 euros.
Um beijo, Nuno. Bom ano!
De Nuno Miguel Guedes a 9 de Janeiro de 2012 às 12:18
Pois é, querida Teresa. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, países alérgicos à autoridade do estado sobre o cidadão, há uma multa para jaywalking. E de facto faz pensar melhor em ser aventureiro das avenidas.

Um óptimo ano para si, Teresa!
Beijos,
Nuno

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