Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

O morro e o asfalto

Há um mês e meio, quando subi o Vidigal pela primeira vez, havia homens com metralhadoras na rua enquanto outros despachavam saquinhos com drogas – pastilhas, maconha, cocaína. Faltavam algumas semanas para a invasão da polícia e aplicava-se ainda a lei dos traficantes. Não era um estreante em favelas (também não era um perito), sabia que a maioria dos seus habitantes não quer nada com o crime. Mas, enquanto passageiro pendura no dorso de uma moto, foi impossível não reparar primeiro nos soldados do tráfico, que seguravam armas automáticas, enquanto a vida de bairro corria normal, como pano de fundo, com crianças a jogar futebol, senhoras carregando compras e uma das melhores vistas do Rio de Janeiro. 

Ia encontrar-me com Gonçalo Pires, um português de 28 anos, habitante do Vidigal, opositor dos lugares-comuns sobre as favelas e conhecedor da tendência que os jornalistas de fora têm para ver apenas homens com armas. Gonçalo não tem telemóvel – “Era muita informação”, justificou-se –, por isso combinámos um encontro através do Facebook. Explicou que era preciso subir o morro de mototáxi, ir para o Bar do Carlão, na rua 3, e perguntar onde vivia o portuga. Gonçalo partilha um apartamento com o amigo e sócio alemão, André Koller. Chegou a São Paulo em 2005, trabalhou como designer, viajou pelo Brasil durante um ano, tem uma prancha de surf e um skate: “Vim para o Rio sem grandes perspectivas, estava farto do trabalho de escritório. Precisava do mar.” Na varanda de sua casa é o mar que aparece: uma vista de quarto de hotel cinco estrelas com direito a ilhas tropicais no horizonte. Gonçalo chegou ali há dois anos, depois de viver no chique bairro do Leblon e de trabalhar para grandes companhias. Montou a sua empresa de design e web design – “Vidigalo”, um estúdio de comunicação visual – e trabalha a partir de casa. Numa favela carioca, um português e um alemão desenvolvem projectos para empresas de todo o mundo.

Por insistência do jornalista e porque a invasão policial estava para breve, Gonçalo falou do tráfico: “Os bandidos já sabem, estão todos a bazar. Não vai haver tiros como no Complexo do Alemão no ano passado.” Dias mais tarde, as autoridades informaram aquilo que os locais já sabiam: Rocinha, Vidigal e a Xácara do Céu, favelas contíguas na zona sul do Rio de Janeiro, com uma população total em volta dos 150 mil habitantes, seriam ocupadas pelas forças policiais que, pela primeira vez, ficariam depois da invasão, instalando uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). 
Em Novembro de 2008, a secretaria de Segurança do Rio instalou a primeira UPP no morro de Santa Marta. Desde então, a polícia entrou, ocupou e permaneceu em mais 18 favelas. O resultado imediato: os cabecilhas do tráfico fogem ou são presos, e deixa de haver bandidos armados na rua. 

Gonçalo pensou fazer um stencil com um polícia a pilhar uma televisão. Queria espalhá-lo pelo Vidigal antes da ocupação. Como outros habitantes da comunidade, Gonçalo tem esperança que o paradigma da corrupção seja alterado mas ainda desconfia da polícia. Conhece o acordo entre bandidos e fardados: os primeiros pagam bem, os segundos não entram no morro. São frequentes as notícias sobre a “banda podre” da polícia: um oficial que mandou matar uma juíza, um agente que fazia parte da escolta de um traficante, as declarações do chefe da Rocinha, Nem, que, depois de capturado, anunciou que metade do dinheiro do tráfico era para a polícia – e tudo isto só no último mês.

Gonçalo lembra-se da invasão do Complexo do Alemão, em 2010, com tanques do exército, tiroteios, traficantes que escaparam por um túnel e uma transmissão em directo para todo o Brasil. Foi a mais mediática das invasões, uma prova da determinação do Rio em limpar-se perante a comunidade internacional antes do Campeonato do Mundo de Futebol (2014) e dos Jogos Olímpicos (2016). Mas quase um ano depois, o Complexo do Alemão não tem ainda uma UPP e os habitantes queixam-se dos abusos e dos roubos da polícia. 

 

No dia antes da ocupação do Vidigal, os bandidos que não tinham mandado de captura estavam na praia, era dia de folga. Nem, o líder do grupo criminoso Amigos dos Amigos (ADA), que controlava a Rocinha, o Vidigal e a Xácara do Céu, foi preso dias antes da invasão. Gonçalo nunca chegou a fazer o stencil e, durante ocupação do Vidigal, na madrugada de 13 Novembro, não se disparou um tiro.

Na primeira vez que entrei no Vidigal após a ocupação, foi fácil perceber o que tinha mudado da noite para o dia. Além da presença do Batalhão de Choque da Polícia, com camuflados cinzentos, coletes à prova de bala e metralhadoras, os mototáxis estavam parados onde antes era uma “boca de fumo” – entreposto de venda de droga. Fui informado que passara a ser obrigatório o uso capacete. 

Não havia traficantes armados na rua. Mas o tráfico continuava, muito mais silencioso e escondido. O próprio secretário de segurança, José Beltrame, disse que as UPP não servem para acabar com o tráfico. Em primeiro lugar, são a entrada do Estado em territórios dominados pela magistratura dos traficantes há décadas. Pretendem tirar as armas da rua e evitar cenas impunes de violência como aquela que aconteceu num baile funk, no Vidigal, quando visitantes chegados da Rocinha se desentenderam com um local. Pertenciam todos ao mesmo grupo criminoso, ADA, mas o bate boca acabou com dois homens abatidos a tiro de pistola. 

Na última vez que subi o Vidigal, antes de escrever este artigo, encontrei três portugueses, sem t-shirt, descendo a ladeira. Gonçalo ia almoçar com amigos. Um deles, Diogo, é dono de confeitarias no Rio. João estava apenas de visita mas, tal como Diogo, procurava terrenos e casas para comprar no Vidigal. Gonçalo apresentou-os a alguém que sabe do mercado imobiliário do morro. O homem, sogro de um português que vive no Vidigal, ofereceu ajuda: “Se eles percebem que vocês são gringos vão aumentar o preço. Falem comigo que vou junto.” Há quem diga que os preços duplicaram num ano, que já tinham começado a subir com a perspectiva da pacificação. Um barraco de tijolo, quarto e sala, pode custar 20 mil euros. Mas há prédios no Vidigal. E moradias que podiam aparecer em revistas de arquitectura. Um desses prédios, bem alto, na parte baixa do morro, tem a cobertura à venda: 840 mil euros.

Na procissão de cumprimentos e conversas que são os passeios com Gonçalo – parece que conhece toda a gente no Vidigal – apareceu alguém da VDGTV, televisão local, vista por 50 mil pessoas, com quem a empresa de Gonçalo colabora – a sua empresa também está envolvida num projecto de formação profissional no Complexo do Alemão e adoptou o sentido de entreajuda da comunidade como manual para o negócio: “Vivi dois anos no Leblon, não conhecia um vizinho. Aqui, se o meu fusca (volkswagen carocha) avariava, vinham logo oito pessoas a correr para me ajudar. Ninguém faz nada sozinho, uma 
pessoa só não dá em nada.” 

O orgulho de morar no Vidigal é honesto, a gratidão também: “Desde que vivo aqui que o meu trabalho mudou. Podes ir ver as coisas que fazia em São Paulo e os meus projectos desde que estou no Vidigal. Nota-se a diferença. É muito diferente criares alguma coisa depois de duas horas de trânsito, em São Paulo, dentro de um ônibus, ou acordares com esta vista e ires trabalhar depois de uma surfada.” 

Gonçalo e André, europeus emigrantes de longa duração no Brasil, querem participar da mudança no Vidigal, sabendo que umas coisas continuarão na mesma enquanto outras podem transformar-se demasiado depressa. Só a Rocinha terá obras no valor de 310 milhões de euros até 2014. Muitas casas receberão, pela primeira vez, saneamento e abastecimento de água, bem como serviço de correio, limpeza das ruas e recolha de lixo – no primeiro dia em que os serviços municipais trabalharam na Rocinha, foram recolhidas 135 toneladas de lixo. 

Agora, sem traficantes armados, com a presença da polícia e a promessa de ruas urbanizadas, aproveitando ainda a localização privilegiada na geografia do Rio, o eixo Rocinha, Vidigal e Xácara do Céu pode tornar-se na próxima zona da cidade a sofrer o aumento dos preços e a especulação imobiliária. E há quem tema que a normalização da favela seja também sinónimo do aumento do custo de vida, levando os habitantes a mudar-se para a periferia. 

André Koller, 37 anos, que se mudou para o Vidigal antes do burburinho mediático, não tem ciúmes dos novos namorados do morro. Durante um almoço, lembrou os anos, antes da sua chegada, quando os ADA disputavam o Vidigal com o Comando Vermelho, numa constante guerra entre facções, com execuções, tiroteios e cabeças expostas. Num português carioca com leve sotaque germânico, André disse: “É normal que estas pessoas queiram aproveitar o momento e ter uma vida melhor. Foram muitos anos… Quem cresceu aqui joga com as cartas que lhe foram dadas, não pode escolher. Na Alemanha a maioria das pessoas pode escolher as cartas. Lá temos todos mais ou menos a mesma vida, a mesma educação, as mesmas hipóteses. Lá toda a gente tem um Golf, aqui é uma festa ter um Golf. Eu adorava carros, tinha um Mercedes. Agora tenho uma moto velha. Vim para aqui para ter uma vida diferente, mas percebo que as pessoas queiram ter coisas. Eles não entendem porque não estou na Alemanha, dizem-me que a vida dos alemães é um sonho. Para mim o sonho é isto.”

André saiu de Hamburgo para São Paulo em 2001, diz que gosta do espírito de vizinhança do Vidigal, fala sobre o homem que lhe entrega pão à porta e que não aceita gorjeta, do vigor e juventude do bairro: “Aqui há muita fome de vida.” 
De acordo com um levantamento feito pelo jornal “Globo”, nos últimos três anos as UPP reduziram os homicídios a metade e houve menos 11 mil assaltos nos bairros circundantes a favelas com UPP. O Vidigal e a Rocinha esperam agora as UPP Sociais para aplicar políticas de saúde, educação e assistência social – algo que não aconteceu em outras favelas, como o Complexo do Alemão, e que leva os críticos a apontar um favoritismo das autoridades em relação às favelas da zona sul, onde se hospeda o turismo do Rio e onde o mercado imobiliário tem mais potencial. 

O jornalista Zuenir Ventura escreveu “Cidade Partida”, um livro que popularizou a expressão “o morro e o asfalto”, e que tratava do fosso entre as favelas e o resto da cidade, uma separação intensificada na década de 80 quando a polícia deixou de entrar nas favelas. Numa entrevista, Zuenir Ventura disse: “Uma vez, vi a cena de um menino de dois anos que teve desidratação. O traficante chegou e o levou para o hospital. Vai explicar para a mãe do menino que ele é um malfeitor... Esse vácuo do poder público, naquele primeiro momento, foi ocupado pelo tráfico.”

O aslfalto não visitou o morro durante anos. As autoridades foram substituídas pelos traficantes. Os moradores da favela aprenderam a viver assim, mas a violência e a pobreza estigmatizaram as pessoas que todos os dias saem do morro para ir trabalhar no asfalto – porteiros, empregadas domésticas, caixas de supermercado. É verdade que há cada vez mais estrangeiros a participar no quotidiano e desenvolvimento da comunidade. Mas também é verdade – apesar do medo e até dos preconceitos classistas – que há cada vez mais habitantes do asfalto a frequentar o morro.

Diz-se que esta cidade não é apenas o que se vê do Pão de Açúcar. A favela – não é novidade – também não é só homens armados, estrangeiros com capacidades de adaptação, motocicletas desgovernadas, bailes funk e polícia corrupta. E quem visita o Vidigal percebe que alguma coisa está a mudar: um fim-de-semana depois da ocupação, Djs europeus tocaram no ponto mais alto do morro; toda a gente passou a usar capacete nos mototáxis, há portugueses a sondar o mercado imobiliário. A favela, como o resto do país, também quer aproveitar a crista da onda da prosperidade e do orgulho brasileiro.

Na última vez que estive em casa da dupla luso-germânica, André chegou com roupa de corrida, feliz por ter subido ao topo da Rocinha, aproveitando uma vista antes só desfrutada pelos bandidos, que tinham o cume do morro como quartel-general. São mudanças simples e ao mesmo tempo magníficas. O Rio menos partido, mais inteiro, menos asfalto e morro. 

Hugo Gonçalves, no Rio de Janeiro

Texto publicado na revista do jornal Sol.

publicado por Hugo Gonçalves às 13:46
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