Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Apologia dos anjos

           À Rita Dias, por exemplo.

 

Há alguns anos os hipermercados e áreas de serviço deste país sofreram uma celestial invasão: por todo o lado apareceram anjos. Ou melhor, livros sobre anjos.

Esses extraordinários manuais davam-nos certezas e garantias sobre a existência destes seres divinos. Estabeleciam complexas hierarquias e funções para cada um, baseados numa «ciência» a que chamaram «anjologia» ou coisa que o valha. Não por acaso, os vários volumes sobre estas matérias encontravam-se invariavelmente colocados nas prateleiras que albergavam os escritos desse anjo expulso do Paraíso da Boa Literatura e que o mundo conhece como Paulo Coelho.

O povo, sequioso de algo que sustente os momentos difíceis da vidinha, esgotou estes livrinhos até à náusea. Mais tarde estas mesmas pessoas fizeram de uma aldrabice chamada O Segredo um best-seller planetário. Mas o verdadeiro segredo talvez seja este: essas pessoas somos nós todos – incluindo os que têm mais do que fazer do que gastar dinheiro em livros que salvam vidas.

 

A evocação desses dias em que se podia convidar para almoçar o nosso anjo da guarda pessoal graças a estas inefáveis obras não me chegou por acaso. O que eu queria dizer é que acredito em anjos (lido assim parece um verso retirado de uma canção dos Abba). Mais: tenho a certeza que existem e estão onde menos esperávamos: na terra, ao nosso lado. Fáceis de encontrar, de tocar. Cheios de vícios e virtudes, choros e sorrisos. Não têm asas e muitas vezes dizem palavrões. Os anjos existem, leitores, e todos os temos. Conhecemo-los como «amigos».

 

É gente estranha e excêntrica, que gosta de nós sem limites ou segundos pensamentos. Não pede nada em troca que não seja a nossa companhia e a nosso bem-estar. Alimentam-se dessa tão misteriosa como desejada poção chamada Amizade e por mais que falhemos ou nos escondamos eles descobrem-nos e ajudam-nos. Amam-nos de outra maneira, um modo livre mas intenso, vedado ao amor romântico. Intervalo para uma palavra de um dos patrocinadores da minha vida, D. Francisco de Portugal: «Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si». Podemos ter poucos (é até recomendável) mas estimemo-los porque são os anjos que podemos tocar. 

 

Este Dezembro está a ser difícil para mim como para muitos. Sem trabalho, sem dinheiro, com problemas do quotidiano feio para resolver todos os dias e a perspectiva de passar o Natal longe dos que mais amo, é fácil cair na auto-comiseração ou desejar a solidão. Mas é exactamente este ano, em que pela primeira vez na vida as dificuldades são reais e parecem inultrapassáveis – é exactamente este ano que pela primeira vez, e graças aos anjos, o Natal é o que sempre deverá ser.

 

 

publicado por Nuno Miguel Guedes às 12:47
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1 comentário:
De Sílvia a 21 de Dezembro de 2011 às 15:51
Iria mais além, e afirmaria a presença de anjos que aparecem e desaparecem com a velocidade de uma estrela cadente, e que marcam de forma estranha a sua presença. É certo que alguns também vão permanecendo, e sim, falo de pessoas.
Um feliz natal, capaz de transformar as dificuldades em oportunidades. :)

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