Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

de coração de interiores

É uma angústia que, volta e meia, me assalta: manter a salvo do caos doméstico um recanto de casa que dê bom cenário para entrevistas.

 

Soa mal, mas um tipo tem de estar preparado para tudo. Toda a espécie de gente dá entrevistas para a televisão. Um dia, vai ser a nossa vez. E, nesse dia, não queremos o estendal da roupa em fundo enquanto explicamos o imperativo categórico de Kant. A secretária cheia de papéis, incluindo facturas, talões do euromilhões e A Bola da semana passada a distrair a atenção do telespectador da nossa perspectiva acerca da falência do pós-modernismo. Os bonecos da infância de que o coração não nos deixa libertar, plantados na estante do ikea, em frente a uma colecção de livros saídos no Correio da Manhã e à foto das férias em Milfontes a perturbar a seriedade do nosso argumento segundo o qual se acaba rapidamente com as marchas de indignados plantando uma barraquinha de distribuição gratuita de ipads2 na praça do lado.

 

A gente vê. Não há sumidade que não tenha o seu canto das entrevistas. Há a sala, a marquise, o quarto da criançada e o canto das entrevistas. Só os livros mais obscuros, só as melhores lombadas, só a melhor estante, as fotos com as personalidades mais distintas (pode ser com a sogra, desde que tenha um ar presidenciável). E um tipo olha em redor e aflige-se. Para onde é que eu mando os senhores da televisão, no dia em que cá vierem?

 

Já aceitei a evidência de que os gatos passarão em frente ao plano. Que o Tomás virá a correr se, porventura, o dono discorrer sobre S. Tomás de Aquino e que a Mia se queixará, a qualquer momento, da falta de atenção, rebolando-se pelo chão, mordendo a canela ao entrevistador ou insistindo em descobir o que existe no fundo da lente da câmara. Tudo bem. Os gatos de Manuel António Pina não o impediram de ganhar o Prémio Camões.

 

Mas inquieto-me. Onde se farão as entrevistas no dia em que só tivermos livros electrónicos e mp3? Em que tudo for um grande ficheiro virtual? Até a roupa do estendal. Até os bonecos da infância. Até a infância.

 

Calma, penso depois. O ikea vai aparecer com os seus cantinhos de entrevistas pré-montados. Talvez os senhores da televisão os consigam simular com efeitos digitais. Talvez a Mia nunca saia da frente da lente e se torne o primeiro gato do mundo a teorizar sobre o imperativo categórico de Kant.

 

Ficaremos ricos, eu e ela. E estas coisas deixarão de nos apoquentar.

publicado por Alexandre Borges às 02:16
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2 comentários:
De manuela a 20 de Dezembro de 2011 às 00:48
De Sandra Almeida a 25 de Dezembro de 2011 às 14:28
:)

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