Sábado, 17 de Dezembro de 2011

À Conversa com Rubem

Manhã linda esta, cheínha de sol, um sol que não se impõe, que se insinua como um sábio que não se quer mostrar sábio. Ouço a minha rádio preferida - a Jango, agora sintonizada em Mozart e numa série de cúmplices,  escolhidos pela própria rádio - e penso no que posso escrever. Lembro-me das crónicas de Rubem Braga que li há dias por causa de um texto para a "Ler" e penso: gostava de escrever um texto como o Rubem Braga (devo ter ido buscar o adjectivo "linda" por causa dele - não tinha medo de o usar). E o que é que isso? Não ter medo de escrever uma prosa límpida, não ter medo de parecer ingénuo, amante das coisinhas da vida (o amor, a amizade, os pássaros, a infância), não ter medo de celebrar a vida ora de uma forma luminosa ora de um modo melancólico, de quem sabe que viver começa por ser ganhar e depois é perder, ir perdendo aos poucos. E que não há que fazer tragédia disso.

 

Acordei cedo, às sete. Talvez tenha sido o meu gesto mais Rubem Braga do dia. Não que Rubem fosse um madrugador, não. Mas a sua prosa é manhã, possibilidade, mesmo quando se despede, como nas últimas crónicas de um volume que tenho na estante. No último texto desse livro, "Os Sons de Antigamente", escreveu: "Meu amigo Mario Cabral dizia que queria morrer ouvindo Jesus, Alegria dos Homens; nunca soube se lhe fizeram a vontade. A mim, um lento ranger de porteira e seu baque final, como na fazenda do Frade, já me bastam". Quem fala assim não é cínico, não se deixou converter em azedume, em mágoa, em ressentimento. Quem fala assim mantém um deslumbre de menino, aquele que melhor permite sorver isto tudo até ao fim.

 

Não tenho grande coisa para dizer. Não tenho um ponto de vista extraordinário para defender. Não me move um assunto. Talvez a coisa de estar para aqui, a teclar umas linhas e girando de vez em quando a cabeça para as árvores outonais do jardim zoológico, já me aproxime da respiração de Rubem. A de estar presente, como dizem na meditação. Sem antecipar o futuro, nem desenterrar o passado. Ouvir um a um os carros que passam na rua, as notas da música, escolhida pelo DJ da internet. Talvez o gesto de escrever uma crónica, como nós fazemos aqui no Sinusite, apenas uma crónica (não um ensaio, não um romance, não um poema), seja a melhor forma de me aproximar de Rubem - ele que durante uma vida toda, apesar das pressões para se empurrar para outros territórios, só escreveu crónicas. O que se percebe bem. Ele queria conversar e a crónica é sempre uma conversa.

 

publicado por Nuno Costa Santos às 08:34
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1 comentário:
De Sofia a 18 de Dezembro de 2011 às 18:14
"...de quem sabe que viver começa por ser ganhar e depois é perder, ir perdendo aos poucos." Isto a mim parece-me suficientemente límpido para ser extraordinário. Quase me apetecia fazer a piada recorrente do "G AMEI", mas calha aqui tão mal, que vou simplesmente partilhar.

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