Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

O regresso das trevas

Ouvi, esta semana, o maior e mais vil dos insultos. Calígula teria corado, como diz o grande Morrissey. Só Deus sabe como, ainda agora, me sinto agoniado com a desumanidade de tais palavras. Senti uma civilização cair; a cultura dos povos a ser cuspida nas sarjetas, a caminho da repugnante decadência onde Artaud encontrou o teatro. O meu corpo parece, ainda, não ter recuperado da repugnância e tenho mesmo acordado aterrorizado com o eventual regresso de uma era sombria, onde as palavras podem ser ditas com aquela frieza e crueldade.

 

Foi um homem que o disse. Não sei o seu nome. A este homem chamarei Vitor Bandarra. Não que seja Vitor Bandarra mas, parece-me sempre que os homens com um comportamento banal que, nos meandros obscuros do lugar comum e da aculturação, suportados pela mão da mesma empresa, banalizam o mal, num senso comum assustador, se chamam Vitor Bandarra. Também não sei quem é Vitor Bandarra. Mas o nome, o nome obriga-me a esta assumpção. É bom fazermos assumpções.

 

Pertence, este homem, então, ao canal de televisão TVI24 e tem, a seu cargo, um programa onde divulga uma espécie de agenda cultural. Cabe-lhe a virtuosa tarefa de mostrar aos outros homens aquilo que se está a passar na cultura do seu país e do mundo. Para esta semana, este vitor bandarra do canal de televisão TVI24, propôs-se apresentar - com alguma brevidade, é certo - a biografia de Luiz Pacheco "Puta que os pariu". Porém, por um qualquer conflito que eu desconheço, recusou-se a pronunciar o título da obra, porque, e passo a citar "a educação não o permite".

 

Não queira o leitor pensar que o estou a sujeitar a estas horríveis palavras por crueldade. Estou tão incomodado como aqueles que me lêem estarão, neste preciso momento. Estaremos, certamente, todos em pânico com a possibilidade de um novo obscurantismo moral invadir a nossa convivência, com o triunfo de um Iago que semeia cobardemente a dúvida sobre a força das palavras nas almas mais incautas. Este é o caminho que as hienas percorrem, o caminho dos que preferem a falsa moralidade, a dissimulação, o ressentimento escondido, o atentado polido à dignidade humana; daqueles que por 30 dinheiros beijam a cultura na face para, de seguida, a denunciarem ao demónio.

publicado por jorge c. às 00:01
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