Domingo, 11 de Dezembro de 2011

repensando os motins

"Ninguém participa em pilhagens por questões materialistas, ninguém o faz porque precisa de uma televisão. Participam porque estão insatisfeitos com a sociedade. Conseguimos destruir uma esquadra da polícia e nunca esquecerei esse dia. Detesto a polícia.”

 

“A tentação cresce assim que vês todos à tua volta a partirem lojas e acabas por desligar e entras e tiras o que podes… Ficávamos a olhar para as coisas que as pessoas retiravam das lojas… e havia, tipo, uns ténis que eu queria comprar, uns brancos… por isso entrei na loja e tirei-os. Assim que o fazes e nada te acontece ficas, tipo, “Oh meu Deus!” e pensas: “isto só acontece uma vez na vida” e vais conseguir ter tudo o que queres de borla.”

 

“Tínhamos um motivo, que era conseguir o máximo de coisas e depois revendê-las… Entrava em lojas de telemóveis, roubava o máximo de telemóveis que conseguia e depois vendia-os a uma loja na Internet. Não condeno as pilhagens, pois ajudaram-me financeiramente… mas sei que não deveria estar a sentir isto”.

 

“Se tivesse um emprego… sinceramente não teria roubado nada… Quando as pessoas têm alguma coisa na vida ou quando sentem que têm algum valor nunca iriam colocar isso em risco”.

 

“Nós controlávamos a situação, e era uma excelente sensação. Podíamos fazer tudo o que quiséssemos. Podíamos partir e roubar, e ninguém nos impediria. Geralmente é a polícia a controlar-nos. Mas agora era a lei que nos estava a obedecer.”

 

Sentimentos de discriminação, injustiça e impotência, instintos criminais, ódio contra a polícia, vingança contra a sociedade, desemprego, frustração, falta de valores, redução dos apoios sociais, mero oportunismo, consumismo, ganância… – muitas foram as causas apontadas para os motins que abalaram a Inglaterra durante este Verão, cada uma terá a sua razão de ser, em conjunto poderão explicar algo. Para pensar e repensar melhor o assunto, vale a pena ler o estudo elaborado pelo Guardian e a London School of Economics (“Reading the Riots”), que se esforça por analisar as mais variadas questões relacionadas com os distúrbios, tendo entrevistado 270 participantes e vítimas e tentado aproximar-se das eternas questões do “porquê” e do “como”.

 

Não há respostas óbvias, mas uma das conclusões que parece mais evidente é o facto de não terem sido questões raciais a provocar os distúrbios. Ao contrário da análise precoce do primeiro-ministro David Cameron, também os gangs não terão desempenhado um papel decisivo nas pilhagens e batalhas com a polícia, que se desenvolveram de forma relativamente espontânea (com a ajuda dos Blackberries).

 

Sobressaem histórias de uma frieza extrema (“as pilhagens não eram nada de pessoal, tratave-se apenas de negócio”), mas também de remorsos posteriores (“olhando agora para trás, apenas parece estúpido. Não parece que tenhamos beneficiado muito com isto.”). Há também vozes a justificar determinadas acções com algo parecido com uma moral: um dos desordeiros alega que apenas pilhou “lojas que sabia pertencerem às grandes marcas. Toda a gente sabe que a Nike comete crimes mundiais contra as pessoas que trabalham nas suas fábricas, por isso estão a receber o castigo merecido. Não atingi quaisquer pequenos negócios para não afectar a economia local… estava a tirar àqueles que não irão ficar afectados.”

 

Frases que soam a desculpas pós-fabricadas quando se sabe que, segundo o estudo, foram pilhados 213 pequenos negócios, personificados por histórias como a de Siva Kandiah, que reclama ter perdido cerca de 85 mil libras, ou o pânico de Margaret Asare, obrigada a abandonar a sua loja, posteriormente vandalizada.

 

Analisando racional e distanciadamente os acontecimentos, é evidente que existe uma grande contradição no acto de destruir e pilhar lojas e casas do próprio bairro para lutar contra o “sistema” e a polícia que o encarna. Também não se percebe como alguém pode justificar, de forma tão confusa, os seus actos com a desculpa de que "apenas está a tirar aquilo que paga em impostos". Não sabemos como reagir a este tipo de actos de destruição cega. Assusta-nos a falta de reivindicações específicas, o descrédito das formas legítimas de protesto, a irracionalidade como único meio. Assusta-nos também perceber como as regras que nos permitem viver em sociedade podem rapidamente ser esquecidas e cair nas ruas. E no final fica um sabor de impotência mútua, porque a vida continuou e não parece que algo tenha mudado.

 

Faz-nos pensar no enorme desconhecimento das realidades envolvidas, o que dificulta muito a apresentação de teorias milagrosas em jantares intelectualizados. Um dos artigos apresentados centra-se mesmo na diversidade de mundos em Londres, em que para uns atravessar o rio e passear na City equivale à entrada num país estrangeiro. Um fenómeno que não se restringe apenas a Londres… encontramo-lo em Paris, em Berlim e também nas Lisboas de Chelas e afins. O que levanta a questão: algo de semelhante poderia acontecer no Porto ou em Lisboa?

publicado por Ricardo Correia às 18:53
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