Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

A falsa intimidade da internet

Peço desculpa pelo atraso. Tive uma semana agitada e resolvi aproveitar o feriado para passear pela cidade, no fim do Outono, pelo meio do frio. Durante a semana, para além do trabalho e do amor - esse peso constante do dia-a-dia -, assisti a duas apresentações de livros (adoro livros) e aproveitei para ver uns amigos. Confesso que a última coisa em que pensei foi escrever a sinusítica crónica a que me comprometi com os meus companheiros de blog e com o leitor. Há, também, os longos períodos passados no Facebook durante a semana, que nos estrangulam a reflexão profunda, dando lugar à frase simplória que acompanha o vídeo ou o artigo do Guardian. Mas, nada contra o Facebook. Tudo a favor. Grande ferramenta de distacção. Viva a distracção!

 

Porém, uma das minhas maiores preocupações da semana nasce de duas destas actividades que aqui vos descrevo: os livros e o Facebook. Uma das melhores formas de divulgação de um evento real é, hoje, o Facebook. A informação espalha-se como um vírus e chega a um grupo mais amplo de criaturas que, aparentemente, estão sedentas de conteúdos. Acredito que haja bem mais do que aparência. Mas, na verdade, a facilidade com que nos deixamos cair na superficialidade do conhecimento e da participação (já ninguém sabe o que isto é) é tal, que basta a breve sugestão de que adquirimos o conteúdo para a nossa imagem ficar salvaguardada.

 

Não compreendo, assim, como é que se pode dizer no Facebook que se vai a um evento e depois não aparecer. Perderam-se os valores. Dizer que se vai não é ir, porra. Sinto-me enganado. E quando um homem se sente enganado, alguma coisa tem de ser feita. Exijo a revolução pela sociabilização. Que vida tão agitada tem esta gente para se comprometer a estar presente e, depois, não dar sequer um arzinho de sua graça? (Breve exercício de retórica).

 

Em 2001, após a grande catástrofe, John Updike descrevia nas páginas da New Yorker o momento em que assistiu à queda das torres na televisão, no seu apartamento em Brooklyn. O escritor chamou a isso mesmo "a falsa intimidade da televisão". Ele estava ali. Quando olho para os condomínios da web, penso que podemos estar a viver uma nova era, a da falsa intimidade da internet. Amamos e odiamos, vamos a eventos, lemos e ouvimos mas, nunca de uma forma real e profunda. Não estamos em lado algum. É tempo, então, para fazer uma revolução: de sairmos, de facto, e participarmos na vida dos nossos; de estarmos presentes; de combater a superficialidade da existência. Não quero com isto dizer que estamos todos fechados em casa em frente ao monitor. Estamos, isso sim, a ficar com alma de monitor.

publicado por jorge c. às 23:44
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3 comentários:
De golimix a 9 de Dezembro de 2011 às 08:34
Não tenho perfil no facebook. Não que não admita as suas qualidades, porque as tem, mas talvez seja pelo que disse que me tenho abstido de c
riar a minha conta.Deu-me para os blogues, gosto de vir aqui e ler em alguns textos maravilhosamente escritos. Gosto de me sentir inebriada pelas palavras. Talvez por aqui as pessoas escrevam aquilo que a alma
lhes dita sem ter que corresponder com a algum perfil que criaram e ao qual têm que fazer jus.Passo pouco tempo em frente a monitores e a ecrans. Vamos quanto tempo resisto a estas mudanças...
De FM a 9 de Dezembro de 2011 às 09:19
E também uma espécie de engana-me que eu gosto, que é os promotores de eventos ficarem chateados por dizeres no FB que não vais a esses
mesmos eventos.
De Cristiana Marques a 12 de Dezembro de 2011 às 16:40
É por essas e por outras que eu fechei a conta do facebook.

Quanto aos eventos, concordo perfeitamente com a sua opinião.

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