Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Rio Hard Core & Pulp Noir

Ray Cortese gostava de calor e de mulheres que se iam embora antes do amanhecer, mulheres entusiastas de quartos de hotel e de fumar na cama. Ray era um desses tipos duros como uma tira de couro onde se afia uma navalha. Praticou pugilismo em subcaves sem janelas, andou sozinho, a meio da noite, em bairros sem candeeiros públicos, foi atirador especial na guerra do Afeganistão. Cresceu nas ruas de Newark, filho de emigrantes portugueses, ágil nos esquemas, rápido de punhos, devorador de mulheres que cediam à sua mão, forte e precisa de atirador especial, segurando a cintura de um vestido, num canto escuro do bar, fumo nos olhos, álcool na língua, chamas nas virilhas.

 

Ray Cortese gostava de calor e de mulheres fáceis. Sentou-se numa esplanada da Avenida Atlântica, tirou o chapéu de palha – uma cópia tropical dos chapéus de detective que usava no hemisfério norte. Pediu um rum sete anos com gelo e uma rodela de lima. Enrolou um cigarro, cruzou as pernas, varreu todo o território em seu redor com olhos de matador profissional. Nenhuma daquelas pessoas suspeitava de como seria uma vítima dócil e sem hipóteses de fuga. Mesmo ao seu lado, estava um italiano balofo com olhos raiados de sangue e pele viscosa de suor. Tão bêbedo como um adolescente na sua estreia com tequila, o italiano babava para cima de uma negra de cabelos esticados até aos ombros. Seria tão fácil degolá-lo numa rua a caminho do hotel, dar-lhe um tiro na nuca com silenciador, oferecer-lhe uma cerveja com pozinhos que desfazem as entranhas e provocam gritos suínos de dor.  

 

Ray reformara-se, não matava mais ninguém, fosse em guerras, fosse num quarto de hotel nos Emirados Árabes, a troco de uma transferência para uma conta bancária numa qualquer ilha onde os narcos vão branquear dinheiro e os políticos vão esconder subornos.     

 

Ray passara por Lisboa nos primeiros meses da sua aposentadoria. Namorou uma fadista amadora, Rosa Maria. Não deu certo. Ela encharcava-se em vinho e oferecia-se aos guitarristas. Ray quis apontar-lhe uma arma, talvez dar-lhe uns tabefes, chegou a agarrá-la pelo pescoço. Mas Ray estava reformado e já não fazia mal a ninguém. Voou para o Rio de Janeiro.

 

Talvez viajasse pelo continente, costa a costa, do Rio a Santiago, só ele e um automóvel sem capota. Mas primeiro passaria algum tempo em esplanadas cariocas, fumando e bebendo, aproveitando a vista, deixando fortalecer a pulsão dentro de si, um crescendo musical, como uma orquestra, as cordas cada vez mais tensas, um constante rodopio de imagens de mulheres que se sentavam com turistas sexuais: pretas, brancas, sem peito, com bunda, safadas e tímidas, todas fazendo pela vida.

 

Ray não aguentava mais. Escolheu uma mulher jovem, longos cabelos de índia e boca de beijo na boca, lábios de negra e de fruta, corpo enxuto e olhos de quem gosta de aprontar. Ela quis sentar-se e pedir uma bebida. Ray perguntou:

 

“Como te chamas?”

 

E ela disse a primeira mentira da noite. No quarto de motel, ligou a rádio, sacou uma garrafa do minibar e disse a segunda mentira: “Vamos beber uma cerveja?” Ray não sentiu nada de estranho nas bolhinhas da cerveja gelada. Mandou-a tirar a roupa. Disse: “Fica assim, diante do espelho, agora toca-te. Mais devagar.”

 

Ray queria que ela tivesse prazer. Insistiu: “Estás a gostar?”

 

Ela não falou e veio sentar-se em cima dele, cavalgando-o sobre as calças, o púbis roçando no tecido. Ele agarrou-lhe os cabelos na base da nuca e disse:

 

“Quero beijar-te.”

 

“Então beija.”

 

Fade to black. O quarto escuro, uma nesga de luz entrando pela janela e alguém a bater na porta. Ray abriu os olhos e a cabeça estalou como um glaciar desmoronando-se sobre o oceano. Levantou-se, desequilibrou-se, mas caminhou para a porta.

 

"Quem é?

“Já passa da hora, senhor.”

 

“Que horas são?”

 

“Uma da tarde.”

 

Ray abriu a porta: “Onde é que estou?”

 

“Em Copacabana.”

 

Ray olhou para o quarto e viu a sua roupa no chão, a carteira aberta, sem cartões ou dinheiro.

 

“Filhadaputa.”

 

“Boa noite Cinderela”, disse o homem.

 

“O quê?”

 

“Você foi roubado, doutor. Boa noite Cinderela: é uma droga que deixa você apagado, sem memória, buraco negro. Quer que eu chame a polícia?”

 

“Não.”

 

“O motel está pago, o senhor pagou na entrada. Tem como ir para casa?”

 

Ray caminhou até ao hotel onde estava hospedado pela calçada de Copacabana. O sol a pique e o barulho de martelos pneumáticos, o bufar dos ônibus que ameaçavam atropelamentos e o corpo moído da droga, obrigaram Ray a entrar numa loja de roupa feminina com ar condicionado. Uma mulher trouxe-lhe um copo de água. Ray esperou alguns minutos, agradeceu e foi para o quarto de hotel planear o crime que interromperia a sua reforma.

 

Pediu o jantar pelo telefone. Filet com fritas, mal passado, e arroz com feijão. Bebeu uma cerveja gelada, tomou um duche e prendeu o revólver entre a base das costas e as calças.

 

Nas ruas de Copacabana encontrou ainda o mesmo barulho, mas agora distorcido pelo álcool servido nos botecos, suavizado pelas coxas das moças e pela maresia que saía da praia como nevoeiro para se colar na roupa e diminuir a visibilidade.

 

Ray sentou-se na mesma esplanada da noite anterior. Reconheceu caras e bundas, voltou a ver os turistas que procuravam carne fresca e se chegavam à frente com a carteira sempre que aparecia uma conta, subsidiando romances tropicais com os euros das suas pensões, ordenados e cartões de crédito.

 

Foi fácil a Ray saber onde morava Cinderela. Pagou, falou curto, não ameaçou, mas ficou claro que alguém se podia machucar caso um endereço não fosse escrito num guardanapo. Uma das mulheres alertou: “Vai não, esse lugar é perigoso.”

 

Ray entrou num táxi e mostrou a morada ao taxista, que se recusou a fazer aquela corrida: “O senhor me desculpe, mas aí eu não vou não.” Ray entrou noutro táxi e atirou uma nota de cem euros para cima do banco do pendura.

 

Uma hora depois entrou numa rua cheia de barracos, na zona norte do Rio. Havia gente num boteco feito de madeira e chapas de zinco. Não eram dez da noite quando Ray saiu do táxi e viu Cinderela grelhando linguiças num braseiro, dois miúdos descalços brincando na terra, e uma televisão gritando reality shows no interior do barraco.

 

Ray sentiu a coronha do revólver. Olhou para as crianças. Cinderela não hesitou um instante. Caminhou na direcção de Ray e pregou-lhe a maior bofetada na história da indignação das putas: “Como você se atreve a vir na minha casa. Meus pais estão lá dentro. Me respeite.”

 

Ray afastou a mão da pistola e caminhou para trás. Ela disse: “Passe lá amanhã, pelas nove, que eu lhe devolvo tudo.”

 

No dia seguinte Ray vestiu-se como se para o baile do liceu. Foi sentar-se na esplanada. Ia esperar por ela. Dependia de uma puta ladra para, muitos anos depois do primeiro tiro, voltar a acreditar nalguma coisa. 

publicado por Hugo Gonçalves às 16:41
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