Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

ainda não o fim do mundo

Jardinando este domingo compreendi que isto ainda não é o apocalipse.

 

As folhas caídas da estação, os rebentos novos das perenes, a relva caprichosa que nuns pontos viça como nunca e noutros hiberna, à espera do tempo do sol. Os cogumelos que brotam do excesso de chuva, as flores rebeldes de inverno, o jasmim e os coentros e a salsa e aquilo-que-julgamos-serem-orégãos e as outras plantas da horta aromatizando, como sempre. Para já não falar da caruma e das pinhas e dos pinhões do pinheiro, das agulhas que levanta ao céu, da sua força serena e hercúlea de sentinela a toda a casa. A nenhuma destas criaturas importam crashes nem defaults. Nada nelas mudou depois da adesão ao euro ou da morte anunciada dele (quem diria que moedas também morrem?). Os economistas todos do mundo podem dizer o que quiserem, falarem até se lhes falhar a voz, que os cedros pouco se importam.

 

Enquanto nos vendem o fim do mundo, a terra continua aí, tudo continua a crescer, o mar a marulhar ao fundo da rua, o choro do bebé da vizinha, o trote do cavalo do outro (nenhuma utopia saudosista; passa mesmo por aqui, todos os dias, um cavalo puxando uma carroça), as oliveiras e as laranjeiras a estremecer ao vento, pássaros, galos baralhados nas horas e os meus braços oferecidos em sacrifício a melgas retardatárias enquanto arrumo as ferramentas ao pôr-do-sol.

 

Nada disto cresce mais ou menos de acordo com o PSI-20.

 

Não creio que deixe de haver cafés da esquina, nem pescadores, nem benficas-sportings como o que vi de véspera, nem a família da mesa do lado de senhoras bem postas e crianças cheias de perguntas e sorrisos entre estranhos episodicamente unidos por uma simpatia clubística.

 

Não há-de deixar de haver arroz nem tomate e, portanto, haverá sempre arroz de tomate a acompanhar qualquer coisa. Nem as vinhas desaparecerão e, logo, teremos sempre um copo de vinho para o qual será depois fácil arranjar um motivo qualquer a que brindar. Não deixará de haver mulheres nem homens nem tudo o que vivem juntos e de que ninguém tem de saber. Não deixará de haver lenha e pão, não deixará de haver livros nem discos nem filmes, nem que tenhamos de reler e reouvir e rever continuamente aqueles que coleccionámos já na estante. Não deixará de haver paz, desde que saibamos onde a procurar.

 

Os economistas e os sindicalistas bem podem ir todos jardinar para o canto deles. Lá para Março, quando voltarem todas as folhas e flores, talvez as bolsas subam. Talvez o bebé da vizinha já articule uma palavra ou duas.

publicado por Alexandre Borges às 02:30
link do post | comentar
4 comentários:
De Nuno Costa Santos a 28 de Novembro de 2011 às 16:00
Bem bonite, como se diz lá nas ilhas. Aquele
De golimix a 28 de Novembro de 2011 às 21:47
Posso esperar pelas flores para comentar este artigo?
;)
O tempo continua tempo, as árvores continuam árvores e eu espero continuar a sorrir e a vir aqui dar o meu ar de Graça :)
Inté
De Alexandre Borges a 28 de Novembro de 2011 às 23:40
:) Isso. Sou um conservador. Gosto de coisas que continuam. Obrigados a ambos. Aquelabrace e inté.
De manuela a 29 de Novembro de 2011 às 01:56
gostei muito...

Comentar post

Autores

Pesquisar

Últimos posts

Contra nós temos os dias

Do desprezo pela história...

É urgente grandolar o cor...

Metafísica do Metro

A Revolução da Esperança

Autores do Condomínio

Hipocondria dos afectos

A família ama Duvall

Notícias do apocalipse

Meia idade comparado com ...

Arquivo

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

Subscrever