Sábado, 26 de Novembro de 2011

Pais Há Muitos

Ser pai é uma coisa tramada. Agora e sempre. Tenho a impressão de que em nenhuma época histórica se considerou que os pais eram, em geral, bons pais – capazes de se superar nessa suprema tarefa. Os bons pais sempre foram uma excepção – um desvio à norma e à natureza. Ao contrário do que acontece com as mães, nunca foi natural ser “bom pai”. Natural era – e ainda é, um pouco – o pai transportar para a paternidade todos os vícios da sua condição masculina. A brutalidade. O egocentrismo. A insensibilidade. A barba.

 

Os nossos avós eram os pais que era suposto serem: distantes e disciplinadores, no escritório, no mar, no campo ou na fábrica. Podiam ser chamados “bons pais de família” pelos regimes mas, no íntimo dos corações, não eram considerados “bons pais” – apenas cumpriam o papel Clint Eastwoodiano que vinha no guião. Depois vieram os pais hippie-freak: aqueles que permitiam tudo, sobretudo tudo o questionasse o papel tradicional de pai. Não, não eram “bons pais”. Fumar ganzas em frente à filharada não era garantia de qualidade acima da média na arte. Ninguém, no seu perfeito juízo, lhe reconhecia esse mérito. Apenas cumpriam com competência o papel de ser do contra, também ele rigorosamente consagrado no argumento das vidinhas.

 

Agora aqui estamos nós: os pais da geração parva. Ou aparvalhada. Com isto tudo, sobretudo. Possivelmente destinados pelos escribas de serviço, aqueles que desenham as cenas da História, a ser a síntese impossível de dois extremos: o autoritarismo de chicote e o libertarianismo de colar de flores. Somos fruto de uma era pós-moderna – ou pós-moderninha, como muitos preferem chamá-la - que nos garante, pelo menos, a diversidade. Sim, há muitos tipos de pais neste tempo ruidoso. Façamos uma tentativa de catalogar alguns dos bichos da Arca de Noé da Paternidade, usando, de uma forma livre, critérios bem diversos.

 

O pai assim moderno. O que não se basta em ser amigo do filho no Facebook – quer ter conversas sérias sobre “a vida” com o filho no chat do Facebook. Quer ser amigo dos amigos e das amigas do filho no Facebook. Porque isso é moderno e porque está convicto de que falar os códigos do filho é a melhor maneira de estar perto dele. O pai moderno por vezes acha estranho que o rapaz não queira ser amigo dele no Facebook. Ou prefira não sê-lo. Para não ter de  levar com um like do pai na foto da primeira bebedeira.

 

O pai reaça. Aquele que, por feitio e vocação, acha que “isto é tudo modernices”. O seu modelo de paternidade é o do seu trisavô. Os lugares comuns todos: nessa altura é que se aprendia bem e cada um sabia o seu papel, não é como agora em que já não há respeito. O pai reaça tem duas conversas por ano com os filhos. Uma para lhe dizer que o brinco não lhe fica bem, outra para dizer que a mudança de sexo está fora de questão. Só os outros pais reaças é que o compreendem. Merece, pois, merece a compaixão de um mundo que já não o aceita.

 

O pai galinha. Existe cada vez mais. Enquanto que grande parte das mãe galinha ainda tem alguns objectivos razoáveis (“ó Zé Ricardo, agasalha-te que nas notícias disseram que vem um frio da Lituânia”), o pai galinha, demasiadas vezes com um sentido prático pior que nulo, é capaz de aconselhar os filhos a irem tomar banho oito vezes por dia porque veio num estudo que faz bem e fazerem um curso de “uma língua obscura muito útil para o futuro deles”. É a mãe galinha em versão masculina - a pior de todas. Irracional e insensata.

 

O pai associativista. Não é necessariamente pai galinha mas gosta de participar em todas direcções e associações dos organismos, escolares e outros, em que o filho esteja inscrito. É ao mesmo tempo uma vocação e uma panca. O pai associativista caracteriza-se por um aspecto algo irritante: tem muitas opiniões. Que exprime, com grande empenho e bastante ego, nas reuniões com outros pais, onde nunca ninguém se entende, para desespero do melancólico professorado.

 

O pai wikipédia. É aquele que está sempre pronto para distribuir informação pelos seus filhos. Cada momento do dia-a-dia é um instante oportuno para fazer um link, oportuno ou inoportuno, com uma área do conhecimento. Essa é uma das modalidades possíveis para exercer a sua mania. A outra é interromper  momentos de lazer da criançada para “uma hora” de estudo sério e aprofundado sobre o mundo, os astros, os reis, o plâncton, o sentido da vida, etc.

 

O pai culpado. Dedica muito do seu esforço ao gesto de compensar o tempo que não dedica, por impossibilidade ou negligência, aos filhos. A história das ofertas a despropósito é um must mas há outras formas, igualmente bizarras, de ir à procura do tempo perdido. O pai culpado é daqueles que tentam recuperar todo o tempo em que não esteve com os filhos nos quinze dias de férias. O que não costuma dar grandes resultados. É que esse desejo legítimo tem de ser confrontado com a pulsão dos filhos para estarem com os amigos e com as namoradas e os namorados. O pai culpado transforma-se várias vezes no pai “isto não é um hotel”. De quatro estrelas - com pensão completa.

 

O pai palhaço. O pai entertainer. Tem ensinamentos vários para os filhos mas só dentro da categoria “como rebolar no chão da sala, partindo, uma a uma, as louças da Tia Dolores”. O pai palhaço apresenta uma grande limitação: não consegue ser outra coisa. Está viciado em ser palhaço. Ganhar o riso dos seus filhos é o seu prazer supremo (e quem somos nós para censurar isso). Consiste basicamente na ancestral instituição palhaço da turma, sendo que a turma dele é a família.

 

O pai que julga que é avô. Tem alguma coisa de pai culpado mas não precisa de sentir culpa para fazer aos netos aquilo que os avós normalmente fazem – porque é esse o seu direito e é essa a sua missão: sabotar todos os ensinamentos dos progenitores. No fundo funciona com as mães das crianças nos mesmos moldes. Se ela diz para o filho ir estudar ele põe-no a ver o programa dos Gormittis. Se a mãe ordena que o filho faça a cama, o pai organiza com o filho uma batalha de almofadas. Tal como acontece com muitos avós, quando a criança começa a berrar em demasiada, deixa-a com quem cuida verdadeiramente dele, com o argumento: “Já passou a minha altura de aturar isto!”.

 

O pai incógnito - dentro da própria casa. Esqueçam as violinadas melancólicas. Não estamos a falar de dramas de programa da tarde. O pai aqui está incógnito mas ninguém vai à procura dele em jornadas épicas comentadas pelo dr. Quintino Aires. O pai encontra-se em parte incerta – mas sempre dentro de casa. Nunca se sabe onde está e às vezes já nem se sabe quem é. Tanto pode ser encontrado no escritório a ler um relatório e contas como na marquise a assistir, pelo computador, ao Rio Ave – Leixões. No fundo ele ainda está sempre num exílio interior qualquer do qual ninguém o consegue tirar. A família precisa dele mas é ele que precisa, urgentemente, de ajuda.

 

Além destas categorias todas (às quais se podem juntar muitas e muitas mais, conforme os traumas de cada um), há a do pai não convencional, classificação na qual me reconheço, como pai de dois moçoilos que sou, mistura imoderada e desequilibrada destes tipos todos de pais – e de outros que ainda estão por magicar. Não é encaixável numa só categoria – o que confunde “a sociedade” e o empurra rapidamente para a categoria pai maluco. Que, diga-se, é uma maneira relativamente simpática de dizer pai que não nasceu para ser pai, designação muito citada nas repartições e casas de chá, como se houvesse alguém a nascer para ser pai. Mais facilmente se nasce para se ser árbitro de futebol do que para se ser pai.

 

O pai não convencional tanto pode ser escandalosamente progressista como surpreendentemente conservador. Tanto pode asneirar e trocadilhar com a filharada a partir  dos nomes das figuras mais respeitáveis da família e da religião como, no minuto a seguir, dizer que se devem portar bem à mesa. Fura as convenções de um lado e do outro. É, acima de tudo, pouco normativo como pessoa – não faz tudo mas faz bastante o que lhe dá na cabeça, tornando-o, digamos, relativamente imprevisível e sujeitando bastas vezes a inevitáveis pedidos de divórcio na hora.

Tem dias temáticos. Ou horas. Ou segundos. Como pai não convencional que é, assume, para escândalo dos outros adultos, os seus humores. Ou por outra: reage à ditadura dos especialistas que defende que os pais não devem mostrar sentimentos menos positivos à criançada. Se está mais irritado com as facilidades pós-modernas é o pai reaça. Se está mais bem-disposto é o pai palhaço. O facto de não ser convencional permite-lhe mais tarde arrepender-se de tudo isto - e de manifestá-lo de forma aberta à descendência. Pai que é pai não pede desculpas. Este pede e, topando os riscos da sua conduta, prefere a autenticidade à coerência.

 

Dentro da categoria pai não convencional existe a subcategoria pai artista (concedo que alguns teóricos possam defender que todo o pai não convencional é um pai artista). O pai artista é, aos olhos do senso comum, o pai doidivanas, incapaz de cumprir o rendimento mínimo das regras de uma paternidade como deve ser. Apareceu, por exemplo, muito, de forma condenatória, nas resenhas ao filme do “Vão Buscar Alecrim”, feitas por gente com a cabeça arejada (ganhou o Indie o ano passado), sobre a relação entre um pai e os dois filhos em ambiente nova-iorquino dos 80’s, e deve surgir agora de forma mais light a propósito “Somewhere”, o filme de Sofia Coppola, sobre as histórias de um pai famoso e da sua filha. Digamos que ser filho do vocalista dos Kiss não é para qualquer um mas isso não quer dizer que se vá consumir cereais com coca ao pequeno-almoço.

 

O pai não convencional é rapidamente encurralado na categoria pai criança. Ou no vulgar “criança grande”. Como se um adulto não pudesse ter o seu lado de bebé. Permitam-me o desabafo a dois parágrafos do fim: que injustiça esta de nos quererem adultos ultra-responsáveis por tudo o que fazemos quando ainda ontem estávamos a ser mimados ao lanche por anafadas tias! Um pai pode e deve ter birras – até mesmo por não lhe permitirem ter birras. E não existe escândalo algum se, uma vez por outra, for o filho a pô-lo no lugar.

 

É importante preparar os filhos para o facto provável de o pai não convencional ser muitas vezes motivo de zombeteira conversa nos pátios da escola - instigada, normalmente, pelos pais convencionais, inimigos de tudo o que tenha cor e lhes cheire a extravagância. Uma conversinha basta, daquelas que servem para todo o tipo de gozações infanto-juvenis  - e nem sempre é preciso tê-la de uma forma solene e expressa. Quando a relação é boa, cresce desde cedo nos filhos dos pais não convencionais um cúmplice lado não convencional, exercido logo nos primeiros anos e mais tarde, pela vida. Mesmo que se tornem nuns direitinhos funcionários dos Seguros, serão sempre mais tolerantes em relação àquilo que foge das catalogações de salão. E, o que não é para todos, dificilmente esquecerão o pai que tiveram.

 

(Publicado na 'Notícias Sábado')

publicado por Nuno Costa Santos às 01:00
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1 comentário:
De golimix a 28 de Novembro de 2011 às 21:58
Qualquer dia tem que fazer um artigo para as mães :)
O seu desabafo "a dois parágrafos do fim" tem toda a razão de ser. Se não nos permitimos ser postos, volta e meia, no "lugar" pelas crianças, quem a sai a perder somos nós.
A cabeçita dos mais novos alcança muito mais do que podemos imaginar. E os pais podem ser muito mais do que acham que são;)

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