Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

noticiário pessoal

Foi no dia das últimas legislativas. O país mediático parado, o real entre uma coisa e outra, eu e uma trupe de amigos reunidos no restaurante do costume para acompanhar a noite eleitoral. Conversas monotemáticas, piadas de ocasião convertidas em posts, desconstruções de leituras dos resultados, observações sobre o futuro próximo, celebrações em geral. Entre tudo isto, constantes toques de telefone. Choviam chamadas e mensagens acerca das votações daqui e dali, parabenizações e lamentos, números em primeira mão e trocas várias de galhardetes, etc. Nisto, a enésima mensagem. Era de uma amiga com quem não me recordava de alguma vez ter discutido política. Incrédulo, julgando que a importância daquelas eleições teria sido tal que até a teriam movido a ela, dou com uma foto do filho de meses sentado no seu cavalo de madeira sobre a legenda: “O meu cavaleiro.”

 

Já tinha respondido aos amigos que deixavam o governo, felicitado os que entravam pelo círculo longínquo, trocado graçolas com abstémios políticos, só para aquela mensagem não tinha resposta. Vinha do espaço sideral e nem sempre temos a lucidez de saber falar essa língua das estrelas e doutras coisas extraordinariamente normais.

 

De igual modo, fui, na altura, incapaz de verter o assunto em crónica. Roçaria, sem dificuldade, a demagogia.

 

Meses depois, a história continua aqui. Acabei por responder ao postal de viva voz, mas, cá dentro, ele permanece pendurado no centro da minha noite das eleições. O cavaleiro dela, meu afilhado, no topo dos resultado nacionais, unanimemente eleito grande vencedor do serão. E quanto dias mais passam e os noticiários parecem encravados num mesmo groundhog day, menos temo a demagogia. Que importa quem ganha as eleições quando se tem um cavalo de pau?

 

Há pouco tempo, no dia em que caiu o governo grego ou o italiano ou em que Trichet se reformou ou em que o conselho europeu não deu em nada ou a cimeira do G20 fez o mesmo – já não me lembro, um dia importante desses em que nada acontece mas parece mesmo que aconteceu – o avô deste miúdo era internado num hospital às portas da morte. Nesse mesmo dia, enquanto o velho se preparava para ir, o puto deixava o baloiço e dava os primeiros passos, no seu jeito safado para roubar as atenções.

 

A história, claro, continua até hoje. Lá vai andando aos tropeções, recorrendo, sempre que pode, ao velho gatinhanço que domina com notável jogo de cintura. A mãe continua a mandar-me fotografias do cavaleiro apeado. O avô ressuscitou e está de volta a casa. O padrinho borrifou para as acusações de demagogia. Os noticiários continuam exactamente na mesma e tudo quanto podemos fazer é aceitar duma vez por todas que as coisas importantes nunca passam lá.

publicado por Alexandre Borges às 01:43
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3 comentários:
De golimix a 14 de Novembro de 2011 às 17:25
Passam-se com os nossos cavaleiros de pau! Que resgatam princesas e matam dragões... vá matar não! Feri-lo que é para ele aprender ;)

Adorei a demagogia, ainda bem que não se verteu para o esquecimento.
L.Maria
De Alexandre Borges a 15 de Novembro de 2011 às 23:56
Obrigado, L. Maria. Um abraço.
De Apenas mais um Zé! a 20 de Dezembro de 2011 às 15:33
“O vencedor do serão...”

Sim!!! Estes são os vencedores que nos obrigam a vencer... são estes os vencedores que nos obrigam a superar-nos... são, claramente, estes os vencedores que nos obrigam a refletir... e repensar... a repensarmo-nos!
O cavalo de pau, esse, é o que nos transporta para a dura realidade que nos enfrenta e afronta diariamente... ainda que com ou sem demagogias... Mas repara! Quem o conduz é aquele vencedor... quem o leva e para aonde é apenas a ele que cabe a decisão! Sempre...

Um dia, meu caro Paulo, quem sabe os mais velhos e reais demagogos encontrarão, efetivamente, aquele cavaleiro em cela de pau que os obrigará, efetivamente, a refletir, a superar-se... ou mesmo apenas a admitir-se!

Bem haja!

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