Domingo, 13 de Novembro de 2011

Patrícia

Ciúme: uma abordagem prática (5)

 

Na presença de alguém mais velho do que ela, nunca se queixava da idade. Era só uma das suas múltiplas formas de empatia silenciosa, nem sempre bem entendidas. Sem palavras, o estúpido de cabeça oca pode passar por génio taciturno e o tímido pelo calculista que com o olhar todos transforma em cobaia.  Mas o silêncio de Patrícia era genuinamente bondoso e só por uma vez se aproximou de alguém sem curiosidade inocente. O casamento tinha terminado de modo traumático e estereotipado: numa improvável entrada em casa a meio da tarde de um dia útil, surpreendera-o com uma amiga comum diante da lareira e apenas esperou que fizessem biombo da pele de vaca onde se deitaram para logo de lhe anunciar que tinha até ao fim do dia, pois  o que dele ainda estivesse por lá de noite seria despejado pela conduta do lixo. A raiva aguentou-a durante uns dias, até se sentir invadida por um desespero profundo. Estava tão no limite físico do seu choro, que quando soube da morte dele num acidente de carro não conseguiu acrescentar mais nenhuma manifestação de tristeza. Mas ganhou a coragem necessária para ir ao enterro, onde se cruzou com a mãe dele. A senhora estava tão desfeita que parecia uma carpideira zelosa e Patrícia de imediato se sentiu na obrigação de a animar. Nunca tinham sido próximas, mas também não havia aquela antipatia latente tão comum entre a sogra e a nora. Nos dias seguintes, foi visita regular na casa da senhora. Tomavam chá juntas. Depois passou a aparecer também ao serão e viam televisão até a primeira cabecear de sono. Numa dessas noites, por estar a chover, Patrícia aceitou o convite para dormir em casa da senhora e a partir desse momento começaram também a tomar o pequeno-almoço com regularidade. E a almoçar fora com frequência. E a telefonarem-se mais de uma vez por dia. Era um convívio sem anedotas, sem risos e em que apenas a senhora chorava. Patrícia ouvi-a falar das tropelias do filho quando era criança e era incapaz de trazer informação à conversa, limitando-se a consolar a senhora. Bastava-lhe sentir a dor daquela mulher para não poder expressar a sua própria mágoa. E quando as amigas lhe diziam que tinha sido melhor para ela que ele tivesse morrido, Patrícia concordava, mas não pelas mesmas razões. As amigas invocavam uma espécie de justiça divina e a superior serenidade das viúvas quando comparadas com as mulheres atraiçoadas; Patrícia só pensava no privilégio que era poder privar com alguém ainda mais infeliz do que ela.

 

 


 

 

 

Abordagens prévias: 12, 3, 4.

 

Série que sucede a Infidelidade: uma abordagem prática.

publicado por Vasco M. Barreto às 11:44
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1 comentário:
De Cristina a 13 de Novembro de 2011 às 20:28
Você não sabe o que é o ciúme!

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