Sábado, 12 de Novembro de 2011

Correrias educadas na cidade

Avisaram-me que Londres corria muito, nunca parava de correr no anonimato. É verdade, ao final do dia sente-se uma ânsia nos olhares das pessoas, uma ânsia de chegar a casa. Andam determinados como se já tivessem perdido muito tempo. Como se conhecessem um sítio melhor.

 

Numa cidade com esta dimensão, o tempo é um bem demasiado valioso, há poucos minutos para doar, e os dias são sempre precedidos de uma enorme organização. Por isso, muitos escolhem a sua casa em função do local do trabalho, poupando assim desnecessárias horas em transportes. Na grande maioria das vezes opta-se também por ir apenas aos cinemas, aos ginásios e aos pubs que se situem numa área próxima. Um jantar num restaurante na zona sul quando se vive no norte? Parece muito complicado, é melhor aceitar o convite para o encontro a três paragens de distância. (Se calhar, até os amigos que decidiram ir viver para o outro lado da cidade passam a ser bloqueados nos facebooks da vida).

 

No centro, assiste-se a um remake, mais aburguesado, do filme A Saída dos Operários da Fábrica dos irmãos Lumiére, quando por volta das 17 horas massas de engravatados e saias-casaco marcham para a estação de metro mais próxima. Muitos deixam os fatos no trabalho, vestem uma roupa desportiva e vão a correr para casa, tornando desnecessária a ida ao ginásio. Por mim passam filas organizadas das pessoas com as direcções estudadas e os passos mecânicos, dividindo-se em faixas no passeio e replicando os comportamentos dos automobilistas vizinhos. Peões sonhadores com as mãos atrás das costas são rapidamente engolidos e convertidos.

 

Esmagados nas carruagens do metro, não se sente, no entanto, a agressividade que acompanha Nova Iorque, por exemplo. Graças à tão falada fleuma britânica, as pessoas conversam em tom de café, apesar de terem um braço estranho atravessado entre elas. Empurram-se educadamente e pedem desculpa. Nas plataformas, os chefes da estação conseguem controlar as multidões enquanto vão contando piadas ao microfone. No supermercado, os operadores de caixa não têm pressa e gostam de nos perguntar como está a correr o nosso dia, enquanto o meu gestor de conta fala mais de futebol comigo do que de dinheiros.

 

Apesar da correria, consegue-se sempre respirar descontracção e alegria (muitas vezes etílica). Afinal, em regra sai-se bastante mais cedo do trabalho do que em Portugal. Mas é verdade que a determinadas horas do dia a cidade corre. Mas corre sem perder a contenção nem queixar-se do stress. Corre para aproveitar melhor o dia. E corre para o pub para esquecer que corre.

 

 

 

publicado por Ricardo Correia às 13:08
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