Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

O Monstro da Comédia

Como é que vai o humor em Portugal? Bem, obrigado. Está em forma e recomenda-se. Nunca houve tanto espaço para personalidades humorísticas tão diversas. Digamos que há lugar para todos, do mais popular Fernando Rochismo ao mais alternativo nonsense, picado de vídeos dos mais obscuros humoristas americanos e ingleses. O problema, sabemo-lo, é que o país também está assim. Portugal tornou-se num país voluntariamente humorístico. Com a mesma generosa amplitude de tendências. Há tanta gente a fazer humor por cá – entre humoristas profissionais, políticos, talhantes e pessoas com páginas abertas no Facebook – que o género pode um dia explodir por saturação.

 

O monstro está à solta – e, alimentado por uma variedade tão grande de cidadãos, dificilmente definhará tão cedo. Como digno monstro que é, começou por impressionar a populaça e acabará por provocar o mais gigantesco dos bocejos. Porquê? Porque fazer rir é, a maior parte das vezes, surpreender. E não há surpresa possível se toda a gente anda a fazer o mesmo com tonalidades diferentes. Antigamente havia o palhaço da turma, a figura que animava as hostes escolares, cinzentonas a acabrunhadas. Hoje o palhaço da turma é o tipo que não tem graça nenhuma da turma. É o facto de não ter graça que o torna tão original e único. E, paradoxalmente, tão engraçado.

 

Chegámos ao ponto. Vivemos o instante em que não ter graça e não tentar ter graça se tornou uma originalidade hilariante. Haverá personagem mais engraçada do que um resistente anti-humorista (versão actualizada do anti-fascista)? Haverá sujeito mais cómico do que aquele que no meio da galhofa fica seríssimo, resistindo, quase até ao limite da loucura, a embarcar no trocadilho mais à mão? Haverá pessoa mais delirante do que a que enche os seus territórios nas redes de sociais de sentenças sem qualquer ponta de humor e que perante o precipício da paródia com negros assuntos da actualidade dá catorze passos atrás?

 

Continuamos a ter uma falsa imagem de nós próprios. A melancolia já passou por aqui, sim – mas agora está atravessada de uma galhofa tão abundante e nova-rica que corre o risco de se tornar ineficaz. O país anda a precisar de um Hélio Imaginário da seriedade. Alguém tão desconcertante e ingenuamente sisudo, tão originalmente quadrado, que se torne por isso mesmo num surpreendente fenómeno internacional. Ficamos à espera para colocar o devido like.

 

(Publicado na "Printed Blog" de Setembro).

publicado por Nuno Costa Santos às 23:39
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2 comentários:
De golimix a 12 de Novembro de 2011 às 11:11
Não sei porquê mas achei este seu texto, divinamente escrito, hilariante!
L.Maria
De Nuno Costa Santos a 14 de Novembro de 2011 às 14:08
Um abraço! Obrigado pelo comentário. Nuno

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