Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Juízes em causa própria

Faço uma caminhada de 20 minutos todos os dias para o trabalho. Vivo, por estes dias, num bairro grande e funcional. Entre o bairro e o meu local de trabalho a rua transforma-se. Da segurança dos passeios, do comércio e dos serviços, passa-se, quase sem dar por isso, para o pânico de uma via feita preferencialmente para os carros. O passeio sereno dá lugar a uma caminhada cautelosa.

 

Se eu não reparasse nesta diferença teria, com toda a certeza, surpresas desagradáveis todos os dias. Ou então, estaria sempre a reagir. É isto que as pessoas fazem quando são surpreendidas pela mudança: reagem.

 

É natural que, no bairro, os carros respeitem mais os peões e que estes se sintam mais confortáveis e seguros. A tendência é a da prioridade dos peões. Porém, noutras vias, há uma indefinição das prioridades. Os carros acabam por assumir o domínio. Não compreendendo a mudança, os peões optam, pelo que tenho visto, por se tentar impor; desafiam os condutores lançando-se nas passadeiras como suicídas. Não me interessa falar, aqui, do incumprimento de regras tão básicas como as do limite de velocidade mas, antes, da incapacidade de nos adaptarmos à mudança e de reagirmos com uma atitude conflituosa.

 

É certo que as regras existem para garantir um cumprimento mínimo da civilidade. Contudo, nas zonas cinzentas, deveríamos ser mais flexíveis e evitar o conflito. A reacção por impulso reflecte o medo. O conflito torna-se o nosso melhor aliado porque ele define a linha entre a nossa vitimização e a diabolização do outro. Preferimos ser juízes em causa própria do que mediadores da nossa própria convivência.

publicado por jorge c. às 22:28
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2 comentários:
De Ativo a 11 de Novembro de 2011 às 11:43
Difícil é fazer com que os peões se habituem às silenciosas bicicletas. Por outro lado também é difícil fazer com os ciclistas respeitem o espaço dos peões.

Parece que o conflito é de mobilidade, seja ela qual for.
De golimix a 11 de Novembro de 2011 às 18:37
Vivi no Porto alguns anos e esse conflito entre peões e automobilistas (ou até ciclistas) saltava à vista! Achava estranho esse comportamento"suicida" dos peões, e achava mais estranho a aceleração dos carros a provocar os peões!
Mas essas atitudes conflituosas de verdadeiras picardias também se faziam entre automobilistas, e a buzina estava sempre pronta a marchar!! Para não falar em outros sinais pouco próprios...

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