Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

o direito ao silêncio

Vivemos, já se sabe, a ditadura da opinião. A opinião do like, a opinião do indignado, a opinião do blogger, a opinião do fórum, a opinião da agência de rating. A opinião é o salvo-conduto, o livre-trânsito. Não importa donde se venha, não importa o que se saiba, não importa que objectivo se tenha, a opinião adquiriu estatuto de vaca sagrada. Nenhuma é melhor nem pior do que outra, isso nunca, oh, sacrilégio. Porque a opinião, que nada produz, recebeu a graça de não ter de ser submetida a comparações. As elites, a cultura, o conhecimento, são, decerto, ideias antigas que roçam o fascismo, de modo que a opinião dum ignorante é para ser tão levada a sério como a dum sábio. E, quando chega à hora em que se verifique estar errada, pode sempre refugiar-se na sua humilde condição: “Era só a minha opinião”.

Na vida de aristocracia arruinada que levamos, incensamos o direito à informação e o privilégio de ter algumas dezenas de canais especializados nela, mas, não havendo dinheiro para investigações, enchem-se páginas e tempo de antena com aquilo que foi, outrora, precisamente o contrário da informação: a opinião. Comentadores, colunistas, um de cada lado da barricada (como se houvesse apenas dois lados para cada guerra), para nos salvar das opiniões que nos acusem do supremo crime da parcialidade. Por cada notícia de dois minutos, um quarto de hora de opiniões.

Os opinantes são a prova acabada de que cada crise pode ser transformada numa oportunidade. E, hoje, na lenga-lenga do abismo, parecem ser a única carreira em franca expansão. Como ninguém sabe onde isto nos vai levar, tenta-se consolar os pobres de espírito ouvindo quem tem uma opinião para dar. E, então, entram os opinantes, com aquele ar seguro de quem já viveu muitas vidas ou viajou ao futuro e sabe, de fonte segura, como tudo isto se vai desenrolar.

Aquilo que é verdadeiramente extraordinário no opinante é que desenvolveu uma imunidade total à auto-crítica. O comum mortal censurar-se-ia de pronto logo que percebesse que: a) está a repetir o que já todos os outros disseram; b) está a repetir o que ele próprio já disse; c) não faz a menor ideia do que está a dizer.

Roça o artístico. Nenhum líder político, nenhuma grande instituição financeira, nenhum país sabe como resolver a crise global. Os opinantes também não, mas conseguem debitar lençóis de texto sem o mostrar.

Banda que toca enquanto vamos ao fundo, repetem os mesmos chavões dia após dia após dia: isto é o fim do império, estão a fazer-se cortes cegos, é preciso é cortar nas gorduras, o mal é o eixo franco-alemão, isto só se resolve com eurobonds, isto só se resolve com uns Estados Unidos da Europa, vivemos uma verdadeira tragédia grega, o sonho europeu acabou, faltam líderes com a estatura de antigamente, o que é preciso é pôr a economia a crescer.

Como é que isso se faz? Perguntem a quem é pago para isso. A eles só lhes pagam para dar opiniões. Mesmo que tenham falhado clamorosamente quando chamados a pôr em prática a sua fenomenal sabedoria de pacote.

publicado por Alexandre Borges às 07:10
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3 comentários:
De Exilado no Mundo a 7 de Novembro de 2011 às 10:05
Boa opinião!
De helena marques a 8 de Novembro de 2011 às 18:34
Excelente opinião :)
De Fotos Antes e Depois a 12 de Novembro de 2011 às 05:59
A crise global resolver-se-á quando o mundo voltar a ser sustentável, coisa que eu acho pouco provavel, " devido aos avanços tecnologicos", e á ambição dos donos do mundo.

Quanto mais quisermos evoluir, mais nos aproximamos do fim da era humana.

Vivemos num mundo de mentes invertidas.

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