Sábado, 5 de Novembro de 2011

Campismo na City

Fui visitar o acampamento dos auto-proclamados “indignados” junto à Catedral de São Paulo que tem agitado as notícias britânicas. À medida que me vou aproximando da praça sinto alguma tensão: presença policial em várias esquinas, cartazes a informar que determinadas áreas são privadas, para ir beber um café ou entrar numa loja é necessário passar por barreiras de seguranças e inquéritos. Tudo isto acompanhado pelo barulho incessante de um helicóptero a sobrevoar a área.

 

Em plena City londrina, a azáfama da hora de ponta é interrompida por cerca de uma centena de tendas, decoradas com as palavras de ordem contra a ganância bancária. Nas paredes, os mais variados cartazes e jornais denunciam negócios corruptos. Alguém renomeou o espaço de “Tahrir Square”. Existe uma biblioteca, um centro de informações e uma tenda grande para debates e apresentação de filmes. Entre as tendas, vários jornalistas em directos para as televisões.

 

Ao contrário das autoridades eclesiásticas, envolvidas em discussões internas que já provocaram a demissão de três altos funcionários, o movimento responsável pela manifestação tem conseguido dominar a arte da comunicação. Conscientes de que serão facilmente categorizados como um bando de “preguiçosos anarquistas drogados sem hábitos de higiene que vivem à custa dos pais”, conseguiram manter o espaço bem organizado, com duches, casas de banho, cantina e equipas de limpeza da praça. Os porta-vozes foram escolhidos a dedo: profissionais que tiraram férias para apoiar a ideia, reformados ou estudantes eloquentes que conseguem passar a sua mensagem sem extremismos.

 

No entanto, é muito fácil apontar o dedo a este tipo de manifestações, demasiado vagas nas soluções apontadas e idealistas nos seus objectivos. Para além disso, tendem a atrair os activistas profissionais, veteranos das mais variadas batalhas contra aquilo que chamam o “sistema” e as suas várias encarnações, e também apelam à congregação de todo o tipo de interesses minoritários, dispersando a mensagem principal do protesto contra as desigualdades sociais. A tendência para dar um toque demasiado alternativo ao movimento, com workshops espirituais e aulas de vegetarianismo, pode também afugentar potenciais apoiantes menos dogmáticos.

 

Não alinho, no entanto, nas críticas da inutilidade destas expressões de descontentamento, que descambam muitas vezes no paternalismo do “vai mas é trabalhar” (um argumento que parece validar tudo e mais alguma coisa) ou exigem acções e soluções rápidas e eficazes. Existe um excesso de idealismo, sim. Também há muita ingenuidade (podemos vê-la como um antídoto contra o cinismo excessivo?). Corre-se também o perigo de demonizar os bancários, a grande maioria dos quais não recebe as chorudas compensações que enchem os tablóides.

 

Mas a contestação alargou-se a vários países e tem conseguido reunir os mais variados apoios, sem os quais já se teria extinguido. Revela também, num período em que tanto se tem criticado a falta de intervenção e interesse políticos, uma enorme determinação e vontade em transmitir a sua posição (e também em aguentar os Invernos que se aproximam).

 

Conseguiu, sobretudo, fomentar a discussão sobre os perigos dos cortes desproporcionados nos serviços sociais e a necessidade de regulação dos sectores financeiros (tanto na comunicação social, como na praça junto à catedral, onde vários grupos de desconhecidos se reúnem em debates espontâneos) e também chamar a atenção dos políticos para o aumento do descontentamento. Conseguiu, mesmo, que o chefe do banco Barclays admitisse, durante uma conferência, que os bancos têm de voltar a conquistar a confiança da opinião pública e aceitar a responsabilidade por alguns erros cometidos. O que já é um enorme feito. Mesmo não resolvendo os problemas mundiais.

 

 

publicado por Ricardo Correia às 17:13
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2 comentários:
De golimix a 5 de Novembro de 2011 às 19:13
Obrigada por esta visão em primeira mão.
Um filósofo (que já não lembro o nome) disse que em situações de crise surgem pensamentos mais ousados e que nessas alturas pode também alterar-se muitas situações que não estavam bem. As pessoas interrogam-se mais e refletem também em vários assuntos. Com ou sem idealismo (ou excesso dele) a reflexão é importante e pode ser que de facto algo mude, que a sociedade descubra caminhos mais lúcidos e, para ser utópica, enterrando o capitalismo desenfreado.
L.Maria
De Nuno Costa Santos a 5 de Novembro de 2011 às 21:32
Muito bem, my friend! Um abraço com saudades, Nuno

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