Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Mrs Judd

Morreu-me um amigo. Rapaz da minha idade. Daqueles de que não se guarda uma única memória menos agradável, um ressentimento por pequeno que seja. Um tipo duma bondade desarmante, sempre pronto a descobrir algo de bom no mais refinado sacana. Morreu como viveu: sem um pingo de revolta contra a vida que tantas vezes o maltratou, nem contra o cancro que o devorou em meia dúzia de meses.

Deu o último suspiro nos braços da mãe. Quem o aqueceu quando nasceu, amortalhou-o. Não pode haver maior sofrimento. Toda a revolta, toda a tristeza, todo o desespero de quem o amou e tão cedo o perdeu é quase nada quando nós choramos por quem nos devia chorar.

Lembro-me sempre do meu avô, junto do meu tio morto, a gemer: “e agora, quem me leva?”

O único, o radical, o momento que muda definitivamente a nossa vida é o nascimento dum filho. E não, não é só por deixarmos de podermos ou não estar sós, de as consequências dos nossos actos deixarem de ser apenas nossas, mais que tudo é a consciência do tempo certo da nossa morte. Deixamos de fazer a contagem não em anos ou décadas, pedimos só que os nossos filhos nos sobrevivam. É provável que um filho traga a ilusão da eternidade, de alguma coisa nossa permanecer depois da nossa ida, mas a nossa racionalidade ou o nosso coração, eu sei lá, não nos deixa ir tão longe. Queremos apenas normalidade. Que no nosso leito de morte nos reste uma pequena e definitiva alegria: o meu filho fica.  

publicado por Pedro Marques Lopes às 01:29
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2 comentários:
De Anónimo a 1 de Novembro de 2011 às 12:25
MARAVILHOSO!!! PARABENS POR ESTE ESPÍRITO ABENÇOADO POR DEUS :):)
De golimix a 1 de Novembro de 2011 às 14:06
Enquanto lia o seu maravilhoso texto fui invadida por uma tristeza.... quem tem um filho imagina-se na situação que descreveu.
Nada é mais importante e valioso para nós que um filho. Temos que pensar que tivemos a sorte de poder partilhar um pouco da nossa vida com o ser que geramos e vimos crescer, e é para isso que temos que olhar para não sermos dominados pelo medo da perda... devemos sim, sentir e viver o que a vida nos traz... com o coração livre de medo e pleno de amor.
Bjs e sentimentos pela perda

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