Domingo, 30 de Outubro de 2011

Manifesto anti-Halloween

E aqui nos encontramos outra vez, preparados para celebrar entusiasticamente mais uma bonita tradição, tão nossa: o Halloween ou Dia das Bruxas, como alguns preferem dizer para amenizar a estranheza. E a pergunta é: porquê? 

Não que eu tenha algo contra a festa em si, ainda por cima com os alegados antepassados celtas a darem-lhe uma pátina que me agrada. É apenas por ser uma efeméride a martelo, que só acrescenta às vidas dos profissionais da restauração e derivados. Mas para isso já não nos chegava o Carnaval e as escolas de samba da Beira Litoral? Aparentemente o resultado é o mesmo e sempre se pode reclamar uma raiz de originalidade, no caso específico de Torres Vedras.

 

Permitam-me esta breve premissa, antes de iniciarem as diatribes contra o purista e reaccionário de serviço: acho muito bem que toda a gente celebre o que bem lhe apeteça, desde que isso não vá constar no seu cadastro criminal. A origem também me é indiferente. Pessoalmente celebro há muitos anos, por afecto e convicção, o dia de St.Patrick, como se sabe uma festa irlandesa que por via da emigração há muito deixou de ser praticada apenas na Ilha Esmeralda. Mas esta é uma efeméride que não contém outra intenção senão ser uma festa para quem quer e em que a origem está sempre muito marcada. O Halloween – tal como o horroroso Dia de São Valentim – é uma  exportação comercial que querem impingir como cultura popular – ou, pior do que isso, como uma obrigação. Quem tem filhos pequenos já estará sob pressão para arranjar um disfarce tipico do dia de amanhã nos países anglo-saxónicos – mesmo que esteja a viver em Borba ou Vale de Espinho.

 

A pressão comercial passa a ser social e cultural. O que devia ser uma «festa» é uma obrigação: no dia de São Valentim somos obrigados a namorar em restaurantes sobrelotados, no dia 31 de Outubro as criancinhas (e alguns adultos) praticam uma espécie de Carnaval gótico enquanto sugerem  «doçuras ou travessuras». Acredito sinceramente que haja quem se divirta mas para mim faz tanto sentido como no dia 5 de Novembro colocar Portugal a queimar efigies de Guy Fawkes.

 

A verdade é que vai ser dificil parar esta consequência mais triste da globalização. Mas sempre podemos passar a celebrar mais condignamente coisas que nos estão mais perto e desperdiçamos. Por exemplo, em vez de prestar vassalagem a São Valentim, poderíamos ir seduzir, namorar ou casar no dia de Santo António -  em vez de oferecer a este santo o sacrificio do nosso fígado e multidões ébrias só porque sim, como acontece em Lisboa. Nesta busca do mais próximo concedo até as tiritantes mulatas da Mealhada desfilando no Carnaval. Mas tradições de centro comercial, tenham paciência. Quanto a amanhã: eu sei que o Dia de Todos-os –Santos, para além de ser um feriado proposto por uma confissão religiosa, não é o mais exuberante. Mas se querem importar, tragam o Dia de Los Muertos. Eu já o celebrei, e garanto que funciona. Pelo menos aquilo que me lembro.

publicado por Nuno Miguel Guedes às 23:09
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2 comentários:
De golimix a 4 de Novembro de 2011 às 19:19
Ainda não consegui engolir o Halloween, até porque houve um ano, que por acaso não estavamos em casa, deixaram as paredes de minha casa manchadas de ovo que só saiu pintando. Agora viraram-se para os estabelecimentos comerciais e sujam as montras. O doçura e travessura virou mais travessura que doçura... gosto de brincadeira e divertimentos mas odeio vandalismo e libertinagem
De Escrivaninha a 6 de Novembro de 2011 às 16:52
Por cá ainda se celebra o "Pão por Deus", embora, cada vez mais frequentemente as crianças façam o pedido vestidas de bruxas.
Mas o pior é que as crianças já assimilaram o Halloween como uma tradição portuguesa, como São Valentim, aliás.
Talvez aqui o papel da Escola devesse ser mais ativo. Mas quê? Também querem cativar telespetadores, porque tudo tem que ser giro e, se tivermos que sacrificar algo, que seja o instrutivo.

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