Domingo, 30 de Outubro de 2011

Come back to Camden (já dizia o Morrissey)

Amy Winehouse morreu mesmo ao virar da esquina. Pouco resta dos dias frenéticos em que centenas de fãs em lágrimas acorreram a Camden Square para vígilias e oferendas de cigarros e vodka. Apenas uma tímida e recente mensagem numa placa revela o amor que alguém por ela sentiu. A pacata zona de moradias de três andares limpou os despojos do vendaval mediático, respirou fundo e retomou a rotina abastada num bairro conhecido pelo seu ambiente alternativo. Outros acampamentos – mais politizados, indignados e friorentos – celebram-se agora junto à Catedral de São Paulo e provocam a demissão de cónegos e acaloradas discussões nos programas radiofónicos sobre o que Jesus teria feito perante tal situação. Não sei, mas amanhã tentarei passar por lá para saber.

 

Domingo é dia de fugir às multidões que acorrem ao famoso mercado de Camden, quando a afluência é tal que a estação de metro encerra. O alemão e o italiano dos turistas mistura-se com as mais variadas tribos urbanas em eterna reciclagem geracional e a multietnicidade dos vendedores pragmáticos – paquistaneses a comercializar camisas fluorescentes para abrilhantar discotecas, chineses a vender correntes e botas de cano interminável aos muitos góticos. Continuo espantado com a vitalidade dos góticos, das Doc Martens, do estilo militar, dos punks (eles já diziam que não estavam mortos). Envelhecem, reinventam-se e uma nova geração passa a integrar este clube distinto e cada vez mais tradicional.

 

O mercado de Camden está mais comercial, mais plástico, vendido – ou se calhar já o era na época em que os Blur, os Oasis e os Supergrass se entretinham a fundar a “Britpop” nos pubs da zona, na altura bastante mais decadente, e eu também aqui aterrava durante um InterRail à procura de discos, concertos e do Jarvis Cocker, convencido de que tinha chegado ao centro do mundo. Parece que Morrissey também por aqui vivia nessa altura, um feito que ainda garantia mais misticismo ao bairro.

 

Se calhar por isso nem hesitei quando tive a oportunidade de alugar aqui uma casa, onde me reencontro com os mesmos trintões que arrumaram as Doc Martens no sótão, mas continuam a ouvir a música para esquizofrénicos, segundo a descrição de um pai de um amigo, nos seus iPods (protegidos com capas, para não estragar). Com discrição, claro.

 

Deve ser por isso que o bairro está mais limpinho. Chamam-lhe gentrificação. Ou assim.

 

 

publicado por Ricardo Correia às 01:13
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