Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

A liberdade precisa de amigos

Como é que hei-de começar isto? Se calhar começo por dizer que pelo menos este cidadão que hoje publica no Sinusite votou no PP nas últimas eleições. Porquê, pergunta, perseguindo a rima, a Zé Heitor da farmácia. Porque achei que o PP poderia moderar os ímpetos ideológicos ultra-liberais de Passos Coelho e companhia - cada vez mais radicais ao longo da campanha. E o que temos neste momento? O PP ausente e caladinho, cúmplice de uma série de medidas imoderadas e justificadas, como sublinhou Pacheco Pereira hoje na "Sábado", por uma espécie de ódio ideológico ao funcionalismo público e àquilo que se considera ser os seus privilégios. Esperava do PP a moderação que não está a dar - num discurso, numa opinião, num gesto. Numa afirmação de identidade, mais próxima da sua raíz democrata cristã.

 

Sei que este é um discurso fora de moda mas acredito que os valores essenciais do cristianismo (eu que até os cruzo com os do budismo, onde hoje até me movo melhor) podem ajudar a humanizar as políticas, sobretudo aquelas que vêm de utopias ideológicas como são as  do liberalismo puro e duro. Continuo na essência liberal, sim, continuo a acreditar que discursos como este, feito por Adolfo Mesquita Nunes, fazem todo o sentido - acho que falta muita iniciativa e responsabilidade pessoais em Portugal em todas as áreas -  mas sinto a necessidade de ver esse discurso de apelo ao esforço de cada um complementado com um sentido de atenção a quem simplesmente está em desequilíbrio financeiro permanente, a quem é prejudicado porque precisa dos dinheiros dos subsídios de Natal e de férias para pagar despesas essenciais. Ou por outra: só a liberdade é sublinhada. Falta o resto.

 

Sei que há gente no PP, a começar por Portas, com todos os seus defeitos, que partilha, pelo menos em teoria, destes valores. Alguns até os exibem demasiado à lapela - com todos os perigos que isso traz. Mas o facto é que não os tenho ouvido. Achei o discurso de Adolfo Mesquita Nunes um discurso com rasgo e novidade por estar centrado nesta ideia de  que a liberdade é um valor que devia ser mais nuclear por aqui. Penso é que lhe faltou essa dimensão de atenção ao outro, do construir ajudando quem não consegue fazê-lo sozinho, de - numa palavra que se gastou mas que ainda faz todo o sentido - solidariedade. Não há maior manifestação de liberalismo, pelo menos como o entendo, do que o voluntariado. Se cada um cuidasse da rua, do melhor da sua rua, dos problemas da sua rua, dos que sofrem na sua rua, teríamos provavelmente um país melhor e mais simpático para se viver.

 

Tudo isto me faz lembrar uma declaração televisiva antiga de Felipe González, que dizia qualquer coisa como: "A esquerda não consegue falar de crescimento e a direita não consegue falar da exclusão". Acredito que há um equilíbrio qualquer que pode ser perseguido e realizado.  E também aqui confesso o meu "ecumenismo". Não me interessa tanto saber se é pela democracia cristã ou se é pela social-democracia que se chega lá. Importante é que na acção política estejam elementos de empatia e compaixão por quem vive um caminho difícil e desprotegido e  precisa, no plano institucional e da comunidade, de protecção, ajuda e incentivo.

publicado por Nuno Costa Santos às 22:10
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6 comentários:
De Exilado no Mundo a 29 de Outubro de 2011 às 12:12
Paulo Portas é um vaidoso. Anseia o poder e luta ferozmente por ela apenas para se pavonear como homem de estado. Fez agora o mesmo que já tinha feito há uns anos. Nem mais, nem menos. Quem votou nele pode lamentar-se de muita coisa, mas o maior lamento deve ir para a falta de memória!
De Nuno Costa Santos a 29 de Outubro de 2011 às 23:58
Exmo Exilado, olhe que as pessoas não são unidimensionais nem o mundo é a preto e branco.
De Exilado no Mundo a 30 de Outubro de 2011 às 08:05
Pois... E a complexidade ludibria. Mas sistemas complexos também podem ser previsíveis!
De golimix a 30 de Outubro de 2011 às 18:03
Meu caro :-), perante o seu manifesto talento para a escrita, parece-me que juntar no mesmo artigo religião, política e Paulo Portas pode trazer problemas de indigestão.
E ainda bem que o mundo não é a preto e branco! Senão que graça teria? ;)
De Nuno Costa Santos a 2 de Novembro de 2011 às 16:58
Caros Exilado e Golimix, pelos vistos não estamos de acordo. E é tão bom isso (pelo menos de vez em quando)! Ainda mantenho uma reserva de ingenuidade - para alguns utópica, admito - sobre as ideias e as pessoas. E prefiro comprometer-me e enganar-me do que ficar de fora a ver o mundo e a política a acontecerem.
De golimix a 2 de Novembro de 2011 às 17:38
Não estamos de acordo quanto à opinião acerca do Paulo Portas! Ponto. ;)
Quanto a religião... não é algo que eu consiga falar assim.
Mas isso não significa, no entanto, que não mantenha uma certa ingenuidade (não no que toca ao Sr.PP :)). Também não fico de fora deixando tudo a correr ao meu lado! (Injustiça insinuar isso. Hã? :))
Como disse o mundo não é a preto e branco, e não é por gostar do que escreve que tenho que pensar EXATAMENTE como o Nuno pensa, não acha? :)
Obrigada, de qualquer maneira, por manter a interatividade nos comentários. Gosto disso.
Cumps

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