Terça-feira, 1 de Abril de 2008

uma não-crónica para a futilidade eventual da escrita

Queria escrever um texto sobre os amigos. Ou sobre a amizade, se assim preferirem nomear. O assunto, no entanto, está desde manhã a torcer-se na minha cabeça, mais preocupado com a fuga às colisões com os clichés e o kitsch que em dar com uma saída literária real.
A verdade é que “amizade” é uma palavra merdosa. Deu um mau filme de Spielberg, terríveis canções pop – com excepção dos Beatles - , filmes de domingo à tarde, hinos pirosos, associações de solidariedade entre isto e aquilo com uma aura de vacuidade só batida pelo tom geral com que se escrevem homenagens aos artistas quando morrem.
“Amigos” é um conceito demasiado largo. Nem é lato, é lasso. Cabe tudo lá. De maneira permissiva, preguiçosa, mole.
Toda a gente tem amigos, assim parece. Amigos na escola, amigos no trabalho, amigos do bairro, amigos do futebol, do teatro, da natação, do ballet, das férias. “Amizade” é a palavra mais bocejante desde que um antigo governo socialista inventou a “igualdade” enquanto ministério.
Eu queria era falar de ossos e sangue, de palmadas que doem nas costas e abraços sofridos. Queria falar do meu amigo que carregou ao colo o grand-danois ainda quente, falecido ao fim de onze anos de companhia e diálogos silenciosos, e o foi a enterrar no jardim. Queria falar dos amigos que aparecem nos funerais e não sabem o que dizer, dos que rebentam a chorar para não nos deixar a chorar sozinhos, dos que se envolvem em qualquer cena de pancadaria desde que haja dois lados e nós estejamos num deles. Sem perguntar nada.
Queria falar dos amigos que perdoam o silêncio dos egoísmos. Dos amigos maiores que nós, melhores, mais fortes, dessa sensação de admiração que libertam.
Queria falar dos amigos que gostava de ter como padrinhos de casamento, ainda que não queira casar. Dos amigos que merecem muito mais linhas que os milhares que escrevi já sobre amores breves como fósforos. Queria escrever com a fúria, a verdade e os tomates das grandes amizades. Mas vejo o meu amigo a carregar ao colo o corpo do grand-danois ainda quente, imenso e nobre como um cavalo, e percebo que escrever, às vezes, é maquilhagem inútil sobre a beleza óbvia das coisas.
publicado por Alexandre Borges às 01:38
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2 comentários:
De isa a 1 de Abril de 2008 às 14:21
nós por cá já tínhamos saudades suas. é bom lê-lo por aqui!
De Alexandre Borges a 1 de Abril de 2008 às 21:05
Oh, a sempre atenta Isa! Muito obrigado pelo comentário.
Eu já tinha começado, no entanto. Há para aí uma crónica perdida nos arquivos, na segunda-feira de há oito dias, caso tenhas paciência de ir procurar...
Obrigado, de novo. Também é bom saber que está desse lado.

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